Nova descoberta revela que o Sol tem muito mais prata do que imaginávamos 

Nova análise revela que o Sol possui 55% mais prata do que estimativas anteriores indicavam. (Imagem: Fala Ciência)

O Sol continua surpreendendo os cientistas. Embora seja a estrela mais estudada do Universo, uma nova pesquisa revelou que ele contém 55% mais prata do que indicavam as estimativas anteriores. A descoberta resolve uma antiga inconsistência entre a composição química do Sol e a de antigos meteoritos, além de abrir novas possibilidades para compreender como os elementos pesados surgiram e se espalharam pela Via Láctea.

O estudo foi publicado na revista Astronomy & Astrophysics, por S. Caliskan e colaboradores, em 2026. A pesquisa utilizou modelos muito mais sofisticados da atmosfera solar, permitindo calcular com maior precisão a abundância de prata presente na estrela.

Por que medir a prata do Sol é tão importante?

Embora hidrogênio e hélio representem quase toda a massa solar, uma pequena fração é composta por elementos mais pesados, como carbono, ferro, oxigênio e prata. Juntos, esses elementos correspondem a apenas cerca de 1,5% da massa do Sol, mas carregam informações fundamentais sobre a evolução química do Universo.

Cada elemento funciona como um registro da história cósmica. Eles foram produzidos no interior de estrelas ou durante explosões estelares extremamente energéticas. Depois, passaram a integrar novas gerações de estrelas, planetas e outros corpos celestes.

Por isso, conhecer exatamente a composição química do Sol ajuda os astrônomos a reconstruir a formação do Sistema Solar e entender como diferentes elementos foram distribuídos ao longo da história da galáxia.

Uma técnica mais precisa revelou a diferença

Para medir a quantidade de prata, os pesquisadores utilizaram a espectroscopia, técnica que analisa a luz emitida pelo Sol.

Quando a luz atravessa a atmosfera solar, os átomos absorvem comprimentos de onda específicos, formando linhas escuras conhecidas como linhas espectrais. Cada elemento químico produz um padrão exclusivo, funcionando como uma verdadeira impressão digital.

A grande novidade foi a utilização de um modelo tridimensional e dinâmico da atmosfera solar, combinado com cálculos mais avançados da física atômica.

Diferentemente dos métodos antigos, o novo modelo considera também os chamados efeitos de não equilíbrio, nos quais a própria radiação influencia diretamente o comportamento dos átomos responsáveis pelas linhas espectrais.

Como resultado, os cientistas concluíram que o Sol contém aproximadamente 55% mais prata do que se imaginava.

O fim de um antigo mistério do Sistema Solar

Durante décadas, existia uma discrepância intrigante entre a quantidade de prata observada no Sol e aquela encontrada em meteoritos primitivos.

Esses meteoritos preservam praticamente a composição original da nuvem de gás e poeira que deu origem ao Sistema Solar há cerca de 4,6 bilhões de anos. Como Sol e meteoritos nasceram do mesmo material, esperava-se que apresentassem abundâncias muito semelhantes de elementos químicos.

Entretanto, as estimativas antigas mostravam que o Sol possuía significativamente menos prata, algo difícil de explicar.

Com o novo cálculo, essa diferença praticamente desaparece, tornando os valores muito mais compatíveis.

Uma nova ferramenta para entender a origem dos elementos

Os resultados publicados na Astronomy & Astrophysics, por S. Caliskan e colaboradores, em 2026, vão além da simples medição da prata.

A metodologia desenvolvida poderá ser aplicada a outras estrelas de diferentes idades e massas, permitindo investigar onde elementos pesados foram produzidos e como viajaram pela Via Láctea ao longo de bilhões de anos.

Além disso, modelos mais precisos ajudam a compreender eventos extremos, como explosões de supernovas e fusões de estrelas de nêutrons, processos considerados os principais responsáveis pela formação de muitos elementos pesados presentes no Universo.

Ao revelar que o Sol escondia uma quantidade muito maior de prata do que se acreditava, a pesquisa mostra que mesmo nossa estrela ainda guarda informações capazes de transformar o conhecimento sobre a evolução química do cosmos. Cada refinamento nesses modelos aproxima os astrônomos de reconstruir, com maior precisão, a história dos elementos que hoje compõem planetas, meteoritos e até mesmo os seres vivos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes