IA encontra caminho promissor para eliminar nitratos perigosos da água potável rapidamente

IA acelera descoberta de catalisadores para remover nitratos da água potável com mais eficiência. (Imagem: Fala Ciência)

A contaminação por nitratos é um dos problemas mais preocupantes relacionados à qualidade da água potável, especialmente em regiões agrícolas. Fertilizantes, esterco animal e sistemas sépticos podem liberar grandes quantidades desse composto no solo, permitindo que ele alcance aquíferos e poços utilizados por milhares de famílias. Agora, uma nova pesquisa mostra que a inteligência artificial pode acelerar a descoberta de tecnologias capazes de remover esses contaminantes de forma muito mais eficiente.

O estudo, publicado na revista Environmental Science & Technology, por Md. Mahjib Hossain e colaboradores, em 2026, apresenta uma estratégia inovadora baseada em IA para identificar catalisadores capazes de transformar nitratos em substâncias inofensivas, reduzindo também a formação de subprodutos indesejáveis.

Por que o nitrato preocupa especialistas?

O nitrato é um composto amplamente utilizado na agricultura porque fornece nitrogênio, um nutriente essencial para o crescimento das plantas. Entretanto, quando aplicado em excesso, ele pode infiltrar-se no solo e alcançar fontes de água destinadas ao consumo humano.

A ingestão contínua de água contaminada está associada a diversos riscos. Entre eles estão:

  • Síndrome do bebê azul, uma condição grave que reduz o transporte de oxigênio no sangue de recém-nascidos.
  • Maior risco de alguns tipos de câncer, segundo estudos epidemiológicos.
  • Alterações da tireoide.
  • Complicações durante a gestação.

Além dos impactos à saúde, o excesso de nitratos também provoca florações de algas em rios e lagos. Esse fenômeno reduz a quantidade de oxigênio dissolvido na água e pode criar zonas mortas, onde peixes e outros organismos aquáticos deixam de sobreviver.

Os métodos atuais ainda apresentam limitações

Hoje, uma das técnicas mais utilizadas para retirar nitratos da água é a troca iônica. Nesse processo, resinas especiais capturam os íons nitrato enquanto liberam outros considerados seguros.

Apesar de eficiente, essa tecnologia apresenta uma importante limitação: o nitrato não é eliminado, apenas transferido para uma solução residual altamente concentrada, que precisa receber tratamento adequado antes do descarte.

Outra alternativa envolve o uso de catalisadores metálicos, especialmente aqueles contendo paládio combinado com metais como cobre, índio ou estanho. Esses materiais conseguem converter o nitrato em gás nitrogênio, que representa cerca de 78% da atmosfera terrestre.

O desafio é encontrar combinações capazes de maximizar essa conversão sem produzir grandes quantidades de amônio, um subproduto indesejado.

A inteligência artificial acelera a busca pela melhor solução

Tradicionalmente, descobrir novos catalisadores exige anos de experimentos laboratoriais baseados em tentativa e erro.

Para mudar esse cenário, os pesquisadores desenvolveram um sistema de aprendizado de máquina multitarefa, treinado com dados provenientes de 106 estudos científicos publicados ao longo de aproximadamente três décadas.

O modelo analisou simultaneamente diferentes características dos catalisadores, incluindo:

  • Composição química;
  • Acidez da reação (pH);
  • Eficiência na remoção de nitratos;
  • Capacidade de reduzir a formação de amônio.

Com essa abordagem, foi possível prever quais materiais apresentam maior potencial antes mesmo da realização de novos experimentos em laboratório.

Uma nova etapa para a purificação da água

Segundo os resultados publicados na Environmental Science & Technology, por Md. Mahjib Hossain e colaboradores, em 2026, o objetivo principal não foi identificar apenas um catalisador ideal, mas construir uma plataforma capaz de acelerar futuras descobertas.

Essa estratégia pode reduzir significativamente o tempo necessário para desenvolver novas tecnologias de tratamento da água, permitindo respostas mais rápidas a um problema que afeta diversas regiões agrícolas do mundo.

À medida que cresce a necessidade de garantir água potável segura, ferramentas baseadas em inteligência artificial podem transformar a pesquisa em engenharia ambiental. Ao orientar cientistas na escolha dos materiais mais promissores, essas tecnologias têm potencial para tornar os sistemas de purificação mais eficientes, sustentáveis e acessíveis, beneficiando tanto a saúde pública quanto a conservação dos ecossistemas aquáticos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes