Por que o feijão dá gases? A resposta está nas bactérias do intestino 

Microbiota intestinal explica o efeito do feijão. (Foto: Pexels via Canva)

O feijão é um dos alimentos mais completos da alimentação brasileira. Rico em fibras, proteínas vegetais, ferro, magnésio e compostos antioxidantes, ele faz parte de uma dieta equilibrada e está associado a diversos benefícios para a saúde.

Mas existe um efeito colateral que muitas pessoas conhecem bem: depois de uma refeição com feijão, o abdômen pode ficar mais cheio, desconfortável e acompanhado de gases.

Apesar de parecer um problema digestivo, esse fenômeno tem uma explicação científica interessante. O motivo está em alguns carboidratos presentes no feijão que passam praticamente intactos pelo processo de digestão e acabam sendo fermentados pelas bactérias do intestino.

O açúcar do feijão que o corpo humano não consegue quebrar

O principal motivo pelo qual o feijão provoca gases está em um grupo de carboidratos chamados oligossacarídeos, especialmente a rafinose e a estaquiose.

Diferentemente de outros carboidratos, essas moléculas não são totalmente digeridas no intestino delgado porque o organismo humano não produz quantidade suficiente da enzima necessária para quebrá-las.

Com isso, elas chegam ao intestino grosso, onde encontram trilhões de microrganismos que vivem naturalmente no sistema digestivo.

As bactérias intestinais utilizam esses carboidratos como fonte de energia por meio da fermentação. Durante esse processo, são produzidos gases como:

  • Hidrogênio.
  • Dióxido de carbono.
  • Metano, em algumas pessoas.

Ou seja, os gases não aparecem porque o feijão está “fazendo mal”, mas porque a microbiota intestinal está metabolizando componentes que o corpo não conseguiu absorver.

Por que algumas pessoas sofrem mais com o feijão?

A intensidade dos gases varia bastante de uma pessoa para outra. Isso acontece porque cada indivíduo possui uma composição diferente da microbiota intestinal, formada por diferentes espécies de bactérias.

Quem consome poucos alimentos ricos em fibras, por exemplo, pode sentir mais desconforto ao comer feijão pela primeira vez em grande quantidade.

Isso ocorre porque o intestino precisa de um período de adaptação. Com o consumo frequente e gradual, as bactérias intestinais passam a lidar melhor com esses compostos fermentáveis.

Além disso, fatores como:

  • Sensibilidade intestinal.
  • Quantidade consumida.
  • Forma de preparo.
  • Velocidade da digestão.

Também influenciam a produção de gases.

Pequenos ajustes podem reduzir o desconforto

Não é necessário abandonar o feijão para evitar gases. Algumas mudanças simples no preparo e no consumo podem ajudar:

  • Deixar o feijão de molho antes do cozimento: esse processo ajuda a eliminar parte dos compostos que favorecem a fermentação.
  • Trocar a água do molho antes de cozinhar: reduz a quantidade de substâncias liberadas durante a hidratação do grão.
  • Aumentar o consumo aos poucos: permite que a microbiota intestinal se adapte.
  • Evitar grandes porções de uma só vez: quantidades menores podem ser melhor toleradas.
  • Manter uma boa ingestão de água: as fibras precisam de líquido para funcionar adequadamente.

Algumas pessoas também percebem melhora utilizando temperos tradicionais, como louro e cominho, embora a resposta possa variar.

Os gases podem indicar que o intestino está funcionando

Embora sejam incômodos, os gases produzidos após comer feijão fazem parte de um processo natural do organismo.

A fermentação das fibras pelos microrganismos intestinais gera substâncias importantes para a saúde do cólon, incluindo compostos que ajudam a manter o equilíbrio da barreira intestinal.

Portanto, o feijão não é um alimento que precisa ser evitado por causa dos gases. Na maioria dos casos, o desconforto está relacionado à adaptação do organismo aos carboidratos fermentáveis presentes no grão.

Com preparo adequado e consumo progressivo, é possível aproveitar todos os benefícios nutricionais do feijão sem transformar a refeição em um problema para o intestino.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn