Pólen de centeio surpreende cientistas em descoberta ligada ao futuro do câncer 

Moléculas do centeio abrem novas pesquisas sobre câncer. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Durante quase três décadas, duas moléculas encontradas no pólen do centeio intrigaram pesquisadores de todo o mundo. Estudos iniciais indicavam que esses compostos naturais poderiam ajudar a reduzir o crescimento de tumores em modelos animais, mas havia um grande obstáculo: ninguém conseguia determinar com precisão sua estrutura tridimensional.

Agora, cientistas finalmente resolveram esse quebra-cabeça molecular. A descoberta não significa que existe um novo tratamento contra o câncer disponível, mas abre uma importante porta para entender como essas substâncias funcionam e como a química pode transformá-las em futuras ferramentas terapêuticas.

O enigma escondido em duas moléculas naturais

O interesse dos pesquisadores estava nos chamados secalosídeos A e B, compostos encontrados no pólen de centeio, um cereal amplamente cultivado para produção de grãos.

Essas moléculas chamaram atenção porque estudos anteriores sugeriam que extratos derivados do pólen poderiam estimular mecanismos relacionados ao controle de tumores em animais, aparentemente sem causar toxicidade significativa.

Porém, para transformar uma molécula natural em uma possível candidata a medicamento, os cientistas precisam conhecer todos os seus detalhes estruturais. Uma pequena diferença na organização dos átomos pode alterar completamente a forma como uma substância interage com as células do organismo.

Durante anos, duas possibilidades estruturais permaneciam em disputa. As moléculas tinham os mesmos elementos químicos e ligações semelhantes, mas uma região específica apresentava uma diferença de orientação espacial, como uma imagem refletida em um espelho.

A química conseguiu reconstruir o composto em laboratório

Para solucionar essa dúvida, pesquisadores da Universidade Northwestern utilizaram uma estratégia chamada síntese total, técnica que permite construir moléculas complexas passo a passo dentro do laboratório.

O desafio era enorme porque os secalosídeos possuem uma estrutura incomum, com um anel químico de dez membros altamente tensionado, uma característica que dificulta sua fabricação artificial.

A equipe desenvolveu uma rota química capaz de produzir as duas versões possíveis das moléculas. Depois, comparou os compostos sintetizados com amostras naturais extraídas do pólen de centeio.

O resultado permitiu identificar definitivamente qual estrutura correspondia aos compostos encontrados na natureza.

A descoberta publicada em uma das principais revistas científicas

O estudo foi publicado na revista Journal of the American Chemical Society, em 2026, liderado por Yunchan Nam, com participação de Anthony T. Tam, Troy E. Reynolds, Diego N. Rojas, Jonathan A. Brekan, Sneha Sil e Karl A. Scheidt.

O trabalho, intitulado “Synthesis and Structural Confirmation of Secalosides A and B”, descreveu a síntese laboratorial dos compostos e a confirmação da estrutura correta dos secalosídeos. Segundo os pesquisadores, essa etapa é fundamental para permitir novos estudos sobre quais partes da molécula podem interagir com o sistema imunológico e apresentar potencial terapêutico.

Com a estrutura definida, será possível investigar quais regiões químicas são responsáveis pelos efeitos observados anteriormente e criar versões modificadas dessas moléculas, buscando maior segurança e eficiência.

A natureza continua sendo uma fonte de novos medicamentos

A descoberta também destaca um princípio antigo da farmacologia: muitos medicamentos importantes nasceram de moléculas encontradas na natureza.

Entre os exemplos estão:

  • Morfina, derivada da papoula-do-ópio e usada no controle da dor.
  • Paclitaxel (Taxol), originalmente isolado do teixo-do-pacífico e utilizado contra diferentes tipos de câncer.
  • Estatinas, desenvolvidas a partir de compostos produzidos por fungos.

Nesse contexto, o pólen de centeio entra como mais uma fonte de investigação científica. Embora ainda esteja longe de ser considerado um tratamento contra o câncer, seus compostos oferecem uma nova oportunidade para compreender como moléculas naturais podem inspirar terapias futuras.

A resolução desse mistério de 30 anos representa um avanço importante porque transforma uma substância difícil de estudar em uma molécula que agora pode ser analisada com precisão. O próximo passo será descobrir se os secalosídeos realmente podem contribuir para novas estratégias no combate aos tumores.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn