Por que a sua língua pinica ou sangra quando você come abacaxi? (Não é acidez) 

Bromelina do abacaxi pode causar ardência na língua. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A bromelina presente no abacaxi pode explicar a sensação de ardência e irritação após comer a fruta

O abacaxi é uma das frutas mais apreciadas pelo sabor doce e refrescante, mas para algumas pessoas a experiência termina com uma sensação inesperada: a língua começa a arder, pinicar ou ficar sensível. Em casos mais intensos, pequenas fissuras podem surgir e até ocorrer um leve sangramento em regiões já irritadas da boca.

Por muito tempo, esse desconforto foi explicado apenas pela acidez da fruta. Porém, o principal responsável por essa reação é outro componente: a bromelina, um conjunto de enzimas naturais capazes de quebrar proteínas.

Na prática, enquanto o abacaxi parece apenas “queimar” a boca, existe uma reação química acontecendo. A fruta contém uma substância que atua sobre proteínas, incluindo aquelas presentes na superfície da mucosa oral.

A enzima do abacaxi que age enquanto você mastiga

A bromelina é uma mistura de enzimas proteolíticas encontrada principalmente no caule e no fruto do abacaxi. Seu papel natural na planta está relacionado à quebra de proteínas.

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Quando consumimos abacaxi fresco, essa atividade enzimática continua acontecendo por alguns instantes dentro da boca. Como a língua e outras áreas da mucosa oral possuem proteínas em sua superfície, algumas pessoas podem sentir uma espécie de irritação temporária.

Isso pode causar sintomas como:

  • Formigamento na língua;
  • Sensação de ardência;
  • Sensibilidade na boca;
  • Pequenas irritações em pessoas mais suscetíveis.

A intensidade da reação varia bastante. Algumas pessoas comem grandes quantidades sem sentir nada, enquanto outras percebem desconforto logo nas primeiras mordidas.

Por que não é apenas a acidez da fruta?

O abacaxi realmente possui ácidos naturais, como o ácido cítrico, que contribuem para seu sabor característico. Entretanto, a acidez não explica sozinha por que algumas pessoas sentem a língua “machucada”.

A diferença está justamente na ação da bromelina, que possui capacidade de degradar proteínas.

Além disso, fatores individuais podem aumentar a sensibilidade, como:

  • Pequenas lesões já existentes na boca;
  • Mucosa mais sensível;
  • Consumo de grandes quantidades da fruta;
  • Maior contato da fruta fresca com a língua.

Por isso, o mesmo abacaxi pode causar uma reação intensa em uma pessoa e praticamente nenhuma sensação em outra.

A propriedade da bromelina que explica a ardência na boca 

A ação da bromelina foi analisada em uma revisão científica publicada na revista Biotechnology Research International.

O estudo “Properties and Therapeutic Application of Bromelain: A Review”, publicado em 10 de dezembro de 2012, teve como autor principal Rajendra Pavan.

Os pesquisadores revisaram as características bioquímicas da bromelina e demonstraram que ela é formada por enzimas com atividade proteolítica, ou seja, capazes de quebrar proteínas. Essa propriedade explica por que a substância possui diversas aplicações estudadas e também ajuda a compreender sua interação com tecidos ricos em proteínas.

No caso do consumo do abacaxi fresco, essa capacidade de degradar proteínas é uma das principais explicações para a sensação de ardência ou irritação na mucosa oral após comer a fruta.

Existe uma forma de evitar a ardência do abacaxi?

Quem sente desconforto não precisa necessariamente abandonar a fruta. Algumas estratégias podem diminuir a sensação:

  • Evitar consumir grandes quantidades de uma vez;
  • Preferir o abacaxi junto com outros alimentos;
  • Utilizar a fruta cozida em algumas receitas, já que o calor reduz a atividade de enzimas como a bromelina;
  • Retirar partes mais próximas ao caule, onde pode haver maior concentração da enzima.

Apesar da sensação curiosa, essa reação geralmente é passageira e não significa que o abacaxi seja prejudicial. Pelo contrário, a fruta continua sendo uma fonte de fibras, água, vitaminas e compostos importantes para a alimentação.

O caso do abacaxi mostra como alimentos naturais possuem uma química própria. A mesma enzima que torna essa fruta única também explica por que algumas línguas parecem “reclamar” depois de algumas mordidas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn