Diabetes Tipo 3? A ligação entre glicose alta e Alzheimer preocupa cientistas 

A glicose alta pode afetar a memória cerebral. (Foto: Getty Images via Canva)
A glicose alta pode afetar a memória cerebral. (Foto: Getty Images via Canva)

Quando pensamos nos efeitos do diabetes, é comum lembrar dos riscos para o coração, os rins, os olhos e a circulação. No entanto, um novo campo de pesquisa está direcionando a atenção para outro órgão igualmente importante: o cérebro. Cientistas investigam como o excesso de glicose e a resistência à insulina cerebral podem comprometer o funcionamento dos neurônios e favorecer doenças neurodegenerativas.

Foi dessa hipótese que surgiu o conceito de Diabetes Tipo 3. Embora não seja um diagnóstico oficialmente reconhecido, o termo é utilizado na literatura científica para descrever alterações na sinalização da insulina dentro do cérebro que podem contribuir para o desenvolvimento da doença de Alzheimer.

O papel surpreendente da insulina dentro do cérebro 

Muitas pessoas associam a insulina apenas ao controle da glicose no sangue. Porém, esse hormônio também desempenha funções importantes no sistema nervoso.

No cérebro, a insulina participa de processos como:

  • Formação de novas memórias
  • Comunicação entre os neurônios
  • Plasticidade sináptica, que permite ao cérebro aprender e se adaptar
  • Utilização da glicose como fonte de energia pelas células nervosas

Quando ocorre resistência à insulina cerebral, essas funções passam a ser menos eficientes. Como consequência, os neurônios podem apresentar dificuldades para produzir energia e manter suas conexões, afetando gradualmente o desempenho cognitivo.

O que um estudo recente revelou sobre o Diabetes Tipo 3 

Uma revisão publicada na revista European Journal of Neuroscience, em janeiro de 2026, tendo Ankit Verma como autor principal, analisou as evidências mais recentes sobre a chamada Diabetes Tipo 3 e os mecanismos que ligam a resistência à insulina cerebral à neurodegeneração.

Os pesquisadores descrevem que, quando a sinalização da insulina no cérebro é prejudicada, ocorre uma alteração em vias celulares responsáveis pela sobrevivência dos neurônios. Esse processo favorece a ativação de enzimas que aumentam a hiperfosforilação da proteína tau, levando à formação dos emaranhados neurofibrilares, uma das principais características da doença de Alzheimer. Além disso, a resistência à insulina também está associada ao maior acúmulo de placas de beta amiloide, outro marcador clássico da doença.

A revisão também destaca que o excesso de glicose favorece a formação dos chamados produtos finais de glicação avançada (AGEs). Essas moléculas estimulam inflamação, estresse oxidativo e danos celulares que comprometem ainda mais o funcionamento do cérebro, criando um ambiente favorável à perda progressiva da memória.

O conceito ainda está em evolução

Apesar do crescente número de estudos, é importante destacar que Diabetes Tipo 3 não é uma classificação oficial do diabetes. O termo representa um conceito científico utilizado para explicar como alterações metabólicas podem contribuir para a degeneração cerebral observada em muitos pacientes com Alzheimer.

Isso também não significa que toda pessoa com diabetes desenvolverá demência. A doença de Alzheimer possui origem multifatorial e envolve fatores como idade, genética, doenças cardiovasculares, inflamação crônica e estilo de vida.

Cuidar da glicose também pode beneficiar o cérebro

As descobertas mais recentes mostram que manter um bom controle metabólico pode trazer benefícios que vão além da prevenção das complicações clássicas do diabetes. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle da pressão arterial e acompanhamento médico contribuem para preservar não apenas a saúde do corpo, mas também o funcionamento adequado do cérebro ao longo dos anos.

À medida que novas pesquisas avançam, compreender a relação entre metabolismo e cognição pode abrir caminho para estratégias capazes de reduzir o risco de doenças neurodegenerativas e preservar aquilo que temos de mais valioso: nossas memórias.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

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