Marte sem traje espacial: O que aconteceria com seu corpo em minutos

Sem traje espacial, Marte colocaria seu corpo em colapso em menos de um minuto. Entenda a ciência por trás disso. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
(Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Marte é frequentemente retratado como o próximo grande destino da humanidade. No entanto, apesar das paisagens fascinantes e da semelhança superficial com a Terra, o planeta vermelho continua sendo um dos ambientes mais hostis do Sistema Solar para os seres humanos.

Muitas produções de ficção científica mostram astronautas enfrentando perigos em Marte, mas nem sempre representam corretamente os efeitos reais da exposição direta ao ambiente marciano. Se uma pessoa fosse colocada na superfície do planeta sem qualquer proteção, a situação se tornaria crítica em questão de segundos.

Mas afinal, quanto tempo alguém sobreviveria em Marte sem traje espacial? A resposta envolve fatores como pressão atmosférica, falta de oxigênio, temperaturas extremas e um fenômeno pouco conhecido chamado ebulismo.

Uma atmosfera que quase não existe

O principal problema não seria o frio, mas sim a atmosfera extremamente fina de Marte.

Enquanto a pressão atmosférica ao nível do mar na Terra é de aproximadamente 101 kPa, em Marte ela corresponde a menos de 1% desse valor. Além disso, cerca de 95% da atmosfera marciana é composta por dióxido de carbono, praticamente sem oxigênio respirável.

Isso significa que, ao inspirar, os pulmões não conseguiriam fornecer o oxigênio necessário para manter as células funcionando.

Em poucos segundos, ocorreria uma rápida queda dos níveis de oxigênio no sangue, condição conhecida como hipóxia.

Os primeiros segundos seriam decisivos

Logo após a exposição ao ambiente marciano, a pessoa permaneceria consciente apenas por um curto período.

Os efeitos iniciais incluiriam:

• Falta intensa de ar
• Tontura e confusão mental
• Visão comprometida
• Perda gradual da coordenação motora
• Desmaio em cerca de 10 a 15 segundos

Diferentemente do que muitos imaginam, o corpo não explodiria. A pele humana possui resistência suficiente para evitar esse cenário dramático.

Entretanto, outros processos perigosos começariam imediatamente.

O fenômeno que faria os líquidos do corpo entrarem em ebulição

Um dos efeitos mais impressionantes da baixa pressão marciana é o ebulismo.

Quando a pressão externa cai drasticamente, líquidos expostos podem começar a formar bolhas sem necessariamente estarem quentes. Isso ocorre porque o ponto de ebulição da água depende da pressão do ambiente.

Assim, parte da água presente nos tecidos superficiais poderia começar a vaporizar. Como resultado, o corpo sofreria um inchaço considerável.

Apesar de assustador, isso não significaria uma explosão corporal. Ainda assim, o processo provocaria lesões graves e agravaria rapidamente a situação fisiológica.

Quanto tempo a sobrevivência seria possível?

Os estudos sobre exposição humana ao vácuo e ambientes de baixíssima pressão indicam que a sobrevivência pode ocorrer por um curto período se houver resgate rápido.

Em condições semelhantes às encontradas em Marte, uma pessoa provavelmente permaneceria viva por cerca de um a dois minutos, embora já estivesse inconsciente após poucos segundos.

Após esse período, a combinação de hipóxia severa, falência circulatória e danos celulares tornaria a recuperação extremamente improvável.

Além disso, a exposição prolongada aumentaria os riscos de danos permanentes ao cérebro devido à ausência de oxigênio.

Marte exige muito mais do que coragem

A exploração humana de Marte depende de tecnologias sofisticadas justamente porque o corpo humano evoluiu para funcionar nas condições específicas da Terra.

Sem um traje espacial pressurizado, capaz de fornecer oxigênio e manter uma pressão adequada ao redor do corpo, a sobrevivência seria extremamente limitada.

Por isso, quando futuras missões levarem astronautas ao planeta vermelho, os maiores desafios não serão apenas percorrer sua superfície, mas também criar um ambiente artificial capaz de reproduzir as condições que tornam a vida possível na Terra.

Marte pode parecer um mundo familiar quando observado por telescópios. Porém, bastariam alguns segundos de exposição direta para mostrar o quanto ele continua sendo um lugar profundamente incompatível com a biologia humana.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes