Garganta inflamada: Como saber se você precisa de pastilha ou de antibiótico

Maioria das dores de garganta é causada por vírus. (Foto: Dimaberlinphotos via Canva)
Maioria das dores de garganta é causada por vírus. (Foto: Dimaberlinphotos via Canva)

A dor de garganta é um dos sintomas mais comuns nas infecções respiratórias e, ao mesmo tempo, um dos que mais gera dúvida e ansiedade. Em muitos casos, a pessoa observa a garganta inflamada, pontos esbranquiçados e já pensa imediatamente em antibiótico. Porém, essa interpretação nem sempre está correta, e entender o que está acontecendo no organismo é essencial para evitar tratamentos desnecessários.

A maioria das faringites é causada por vírus respiratórios, como adenovírus e rinovírus. Nessas situações, o uso de antibióticos não traz benefício e ainda pode gerar efeitos indesejados.

O que realmente são os “pontos brancos” na garganta

Os pontos brancos que aparecem nas amígdalas nem sempre indicam bactéria. Em muitos casos, eles representam apenas o acúmulo de fibrina, células de defesa e restos inflamatórios.

Isso acontece porque o sistema imunológico está atuando na região, combatendo o agente infeccioso. Em infecções virais, essa resposta também ocorre e pode gerar aparência semelhante à infecção bacteriana.

Outro ponto importante é que doenças como a mononucleose infecciosa, causada pelo vírus Epstein-Barr, também podem produzir placas esbranquiçadas na garganta, confundindo ainda mais o diagnóstico visual.

Quando a suspeita de bactéria aumenta

A principal bactéria envolvida em faringites é o Streptococcus pyogenes. Para ajudar na triagem clínica, profissionais utilizam critérios como os Critérios de Centor, que avaliam sinais e sintomas sugestivos de infecção bacteriana.

Os principais indicadores incluem:

  • febre alta acima de 38°C
  • ausência de tosse
  • presença de exsudato (placas) nas amígdalas
  • gânglios doloridos no pescoço

Quanto mais critérios presentes, maior a probabilidade de infecção bacteriana e maior a necessidade de avaliação médica.

Viral ou bacteriana?

Nas faringites virais, os sintomas costumam incluir:

  • dor de garganta leve a moderada
  • tosse e coriza
  • febre baixa ou ausente
  • evolução autolimitada em poucos dias

Já nas bacterianas, o quadro tende a ser mais intenso e localizado, com dor ao engolir e febre mais elevada.

Mesmo assim, a aparência da garganta sozinha não é suficiente para definir o tratamento.

O risco do uso indevido de antibióticos

O uso de antibióticos sem necessidade pode trazer consequências importantes para a saúde individual e coletiva.

Entre os principais riscos estão:

  • eliminação da microbiota intestinal benéfica
  • efeitos colaterais gastrointestinais
  • aumento da resistência bacteriana
  • redução da eficácia de antibióticos no futuro

O desenvolvimento de bactérias resistentes é um dos maiores desafios da saúde pública atual e está diretamente ligado ao uso inadequado desses medicamentos.

O papel das pastilhas e do tratamento sintomático

Na maioria dos casos virais, o foco do tratamento é o alívio dos sintomas.

As pastilhas para garganta, hidratação adequada e repouso ajudam a reduzir o desconforto local, enquanto o sistema imunológico resolve a infecção naturalmente.

Outras medidas incluem:

  • ingestão de líquidos mornos
  • analgésicos simples quando necessário
  • evitar irritantes como fumaça

A garganta inflamada nem sempre significa infecção bacteriana. Na maior parte dos casos, trata-se de um processo viral autolimitado que melhora com cuidados sintomáticos.

Os Critérios de Centor ajudam a orientar a suspeita clínica, mas a decisão sobre antibióticos deve sempre ser feita com avaliação profissional.

Entender essa diferença é fundamental para evitar o uso desnecessário de antibióticos e preservar tanto a saúde individual quanto a eficácia desses medicamentos no futuro.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn