Durante muito tempo, acreditou-se que um mesmo medicamento teria praticamente o mesmo efeito em qualquer pessoa. No entanto, a ciência moderna mostra um cenário bem mais complexo. Homens e mulheres podem responder de formas diferentes a um mesmo fármaco, tanto na eficácia quanto nos efeitos colaterais.
Essas diferenças não são aleatórias. Elas estão ligadas à forma como o organismo processa substâncias químicas, um campo conhecido como farmacocinética.
O caminho do medicamento no corpo não é igual
A farmacocinética estuda o que o corpo faz com um medicamento desde sua entrada até sua eliminação. Esse processo envolve quatro etapas: absorção, distribuição, metabolismo e excreção.
Em todas essas fases, existem diferenças importantes entre homens e mulheres, influenciadas por fatores como:
- Composição corporal
- Atividade de enzimas hepáticas
- Função renal
- Influência hormonal
Esses elementos determinam a concentração do medicamento no organismo e por quanto tempo ele permanece ativo.
Gordura corporal muda a distribuição do medicamento
Um dos principais fatores está na proporção entre massa gorda e massa magra.
Em geral, mulheres apresentam maior percentual de gordura corporal. Isso influencia diretamente medicamentos lipossolúveis, que tendem a se acumular em tecidos adiposos.
Na prática, isso pode significar:
- Ação mais prolongada do medicamento
- Maior risco de acúmulo no organismo
- Diferenças na intensidade dos efeitos colaterais
Já em homens, a maior proporção de massa magra pode alterar a distribuição e reduzir o tempo de permanência de alguns fármacos no corpo.
O papel do fígado no metabolismo
O fígado é o principal órgão responsável por metabolizar medicamentos por meio de enzimas específicas.
A atividade dessas enzimas pode variar entre os sexos, principalmente sob influência de hormônios como estrogênio e testosterona. Isso impacta diretamente a velocidade de metabolização.
Como consequência:
- Metabolismo mais lento pode aumentar efeitos colaterais
- Metabolismo mais rápido pode reduzir eficácia
- Pequenas variações já mudam o resultado clínico
Hormônios também influenciam a resposta
Os hormônios sexuais modulam não apenas o sistema reprodutivo, mas também enzimas hepáticas, função renal e sensibilidade dos receptores no organismo.
Isso significa que:
- A mesma dose pode ter efeitos diferentes
- Alguns efeitos adversos aparecem com mais frequência em um dos sexos
- A resposta ao medicamento pode variar ao longo do ciclo hormonal feminino
O que a ciência já descobriu sobre isso
Um estudo publicado na revista Naunyn-Schmiedeberg’s Archives of Pharmacology, conduzido por Ahmad Aljohmani e Daniela Yildiz em 21 de outubro de 2025, analisou as diferenças biológicas entre os sexos na farmacocinética e nas reações adversas a medicamentos.
A pesquisa mostrou que fatores como composição corporal, atividade de enzimas hepáticas, função renal e influência hormonal alteram significativamente todas as etapas do processamento dos medicamentos.
Além disso, o estudo destacou que:
- Mulheres tendem a apresentar maior concentração plasmática de alguns fármacos
- Há maior risco de reações adversas em determinados medicamentos
- Muitos protocolos clínicos ainda não consideram plenamente o sexo biológico na prescrição
Caminho para uma medicina mais precisa
Essas evidências reforçam uma tendência importante: a evolução para uma medicina personalizada.
Nesse modelo, fatores como sexo, idade, genética e estilo de vida passam a ser considerados na escolha e no ajuste de doses, reduzindo riscos e aumentando a eficácia dos tratamentos.
A ideia de “uma dose para todos” perde espaço para uma abordagem mais individualizada e segura.

