Por que mulheres sentem mais efeitos colaterais de certos medicamentos?

Hormônios influenciam efeitos colaterais de medicamentos. (Foto: Getty Images via Canva)
Hormônios influenciam efeitos colaterais de medicamentos. (Foto: Getty Images via Canva)

Durante muito tempo, acreditou-se que um mesmo medicamento teria praticamente o mesmo efeito em qualquer pessoa. No entanto, a ciência moderna mostra um cenário bem mais complexo. Homens e mulheres podem responder de formas diferentes a um mesmo fármaco, tanto na eficácia quanto nos efeitos colaterais.

Essas diferenças não são aleatórias. Elas estão ligadas à forma como o organismo processa substâncias químicas, um campo conhecido como farmacocinética.

O caminho do medicamento no corpo não é igual

A farmacocinética estuda o que o corpo faz com um medicamento desde sua entrada até sua eliminação. Esse processo envolve quatro etapas: absorção, distribuição, metabolismo e excreção.

Em todas essas fases, existem diferenças importantes entre homens e mulheres, influenciadas por fatores como:

  • Composição corporal
  • Atividade de enzimas hepáticas
  • Função renal
  • Influência hormonal

Esses elementos determinam a concentração do medicamento no organismo e por quanto tempo ele permanece ativo.

Gordura corporal muda a distribuição do medicamento

Um dos principais fatores está na proporção entre massa gorda e massa magra.

Em geral, mulheres apresentam maior percentual de gordura corporal. Isso influencia diretamente medicamentos lipossolúveis, que tendem a se acumular em tecidos adiposos.

Na prática, isso pode significar:

  • Ação mais prolongada do medicamento
  • Maior risco de acúmulo no organismo
  • Diferenças na intensidade dos efeitos colaterais

Já em homens, a maior proporção de massa magra pode alterar a distribuição e reduzir o tempo de permanência de alguns fármacos no corpo.

O papel do fígado no metabolismo

O fígado é o principal órgão responsável por metabolizar medicamentos por meio de enzimas específicas.

A atividade dessas enzimas pode variar entre os sexos, principalmente sob influência de hormônios como estrogênio e testosterona. Isso impacta diretamente a velocidade de metabolização.

Como consequência:

  • Metabolismo mais lento pode aumentar efeitos colaterais
  • Metabolismo mais rápido pode reduzir eficácia
  • Pequenas variações já mudam o resultado clínico

Hormônios também influenciam a resposta

Os hormônios sexuais modulam não apenas o sistema reprodutivo, mas também enzimas hepáticas, função renal e sensibilidade dos receptores no organismo.

Isso significa que:

  • A mesma dose pode ter efeitos diferentes
  • Alguns efeitos adversos aparecem com mais frequência em um dos sexos
  • A resposta ao medicamento pode variar ao longo do ciclo hormonal feminino

O que a ciência já descobriu sobre isso 

Um estudo publicado na revista Naunyn-Schmiedeberg’s Archives of Pharmacology, conduzido por Ahmad Aljohmani e Daniela Yildiz em 21 de outubro de 2025, analisou as diferenças biológicas entre os sexos na farmacocinética e nas reações adversas a medicamentos.

A pesquisa mostrou que fatores como composição corporal, atividade de enzimas hepáticas, função renal e influência hormonal alteram significativamente todas as etapas do processamento dos medicamentos.

Além disso, o estudo destacou que:

  • Mulheres tendem a apresentar maior concentração plasmática de alguns fármacos
  • Há maior risco de reações adversas em determinados medicamentos
  • Muitos protocolos clínicos ainda não consideram plenamente o sexo biológico na prescrição

Caminho para uma medicina mais precisa

Essas evidências reforçam uma tendência importante: a evolução para uma medicina personalizada.

Nesse modelo, fatores como sexo, idade, genética e estilo de vida passam a ser considerados na escolha e no ajuste de doses, reduzindo riscos e aumentando a eficácia dos tratamentos.

A ideia de “uma dose para todos” perde espaço para uma abordagem mais individualizada e segura.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn