O despertador toca. Você abre os olhos, percebe que ainda faltam alguns minutos para sair da cama e aperta o botão “soneca”. Parece uma recompensa merecida depois de uma noite de sono. No entanto, o que parece um pequeno prazer matinal pode estar confundindo o cérebro e dificultando o despertar.
A ciência do sono mostra que esses minutos extras nem sempre entregam o descanso que prometem. Em muitos casos, eles contribuem para um fenômeno conhecido como inércia do sono, uma condição temporária caracterizada por sonolência, lentidão mental, dificuldade de concentração e redução do desempenho cognitivo logo após acordar.
Em outras palavras, aquele “só mais cinco minutinhos” pode fazer você se sentir ainda mais cansado.
O cérebro já estava se preparando para despertar
Durante as últimas horas de sono, o organismo inicia uma série de mudanças para facilitar o despertar. Nesse período, a produção de melatonina, hormônio associado ao sono, começa a diminuir gradualmente.
Ao mesmo tempo, ocorre o chamado pico matinal de cortisol, uma resposta natural do organismo que ajuda a aumentar o estado de alerta, elevar a disposição e preparar o corpo para as atividades do dia.
Quando o alarme toca, esse processo já está em andamento. Porém, ao voltar a dormir, o cérebro recebe sinais contraditórios. Enquanto parte do organismo se prepara para despertar, outra parte tenta reiniciar os mecanismos do sono.
O problema escondido nos “cinco minutinhos”
O intervalo entre um alarme e outro costuma ser curto demais para proporcionar um descanso restaurador. Ainda assim, o cérebro pode começar a entrar novamente em estágios iniciais do sono.
Quando o segundo alarme interrompe esse novo processo, ocorre uma espécie de “curto-circuito” biológico. O resultado é uma intensificação da inércia do sono, deixando a pessoa com sensação de confusão mental, raciocínio mais lento e menor capacidade de atenção.
Por isso, muitas pessoas relatam que acordam mais cansadas após apertar a soneca várias vezes do que quando levantam logo no primeiro toque.
O que milhões de registros de sono revelaram sobre a soneca
Em 19 de maio de 2025, um estudo publicado na revista Scientific Reports, liderado por Rebecca Robbins, analisou mais de 3 milhões de registros de sono obtidos por meio de um aplicativo de monitoramento. Os pesquisadores observaram que o uso da função soneca é extremamente comum, aparecendo em mais da metade das sessões avaliadas.
A pesquisa também identificou que muitos usuários passam vários minutos alternando entre despertar e voltar a dormir antes de finalmente sair da cama. Segundo os autores, esse comportamento fragmenta os momentos finais do sono, justamente um período rico em processos importantes para a função cerebral.
Embora o estudo não tenha medido diretamente os efeitos cognitivos ao longo do dia, os resultados ajudaram a demonstrar o quanto a soneca faz parte da rotina moderna e por que ela continua sendo alvo de interesse dos pesquisadores do sono.
Como acordar com menos dificuldade
Pequenas mudanças podem tornar o despertar mais fácil:
- Manter horários regulares para dormir e acordar;
- Evitar privação de sono durante a semana;
- Programar o alarme para o horário real de levantar;
- Expor-se à luz natural logo pela manhã;
- Levantar da cama assim que o despertador tocar.
Essas estratégias ajudam o cérebro a completar a transição entre sono e vigília de forma mais eficiente.
A próxima vez que seu dedo for automaticamente em direção ao botão “soneca”, vale lembrar que aqueles minutos extras talvez não estejam entregando mais descanso. Em muitos casos, eles apenas prolongam a luta entre o cérebro que quer acordar e o cérebro que ainda tenta continuar dormindo.

