Por que partir ou mastigar um comprimido que não tem a “linha do meio” pode ser perigoso?

O perigo de partir ou mastigar comprimidos sem a linha do meio. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
O perigo de partir ou mastigar comprimidos sem a linha do meio. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Você já precisou engolir um comprimido grande e pensou em parti-lo ou mastigá-lo para facilitar? Embora isso pareça uma solução simples, em alguns casos pode transformar um medicamento seguro e eficaz em um tratamento menos eficiente ou até potencialmente perigoso.

O detalhe que muita gente ignora é que nem todo comprimido foi desenvolvido para ser dividido. Quando ele não possui a tradicional linha do meio, também chamada de sulco de partição, existe uma grande chance de que sua estrutura tenha sido projetada para permanecer intacta até chegar ao local correto do organismo.

O que existe por trás da camada externa do comprimido?

Muitos medicamentos contam com tecnologias farmacêuticas que controlam o momento e a velocidade com que o princípio ativo será liberado. Entre as mais conhecidas estão o revestimento entérico e os sistemas de liberação prolongada.

O revestimento entérico funciona como uma espécie de escudo protetor. Sua missão é impedir que o medicamento seja dissolvido no ambiente altamente ácido do estômago. Dessa forma, o comprimido atravessa essa etapa praticamente intacto e só libera o fármaco quando alcança o intestino, onde o pH é mais adequado.

Isso é importante por dois motivos principais:

• Alguns medicamentos são destruídos pelo ácido gástrico.

• Outros podem irritar a mucosa do estômago se forem liberados precocemente.

Quando um comprimido desse tipo é partido ou mastigado, essa proteção pode ser perdida. Como consequência, o princípio ativo pode ser degradado antes mesmo de ser absorvido pelo organismo.

O perigo escondido nos comprimidos de liberação prolongada

Outra situação que merece atenção envolve os medicamentos de liberação prolongada, também chamados de ação estendida ou controlada.

Nesses produtos, a formulação foi planejada para liberar pequenas quantidades do medicamento ao longo de várias horas. O objetivo é manter níveis mais estáveis da substância no organismo e reduzir a necessidade de doses frequentes.

Ao quebrar ou mastigar esse tipo de comprimido, a tecnologia é comprometida. Em vez de uma liberação gradual, pode ocorrer uma liberação rápida de grande parte da dose.

Na prática, isso pode provocar:

• Maior risco de efeitos adversos.

• Redução da duração do tratamento.

• Oscilações indesejadas na concentração do medicamento no sangue.

Estudo explica o risco dessa prática

Em maio de 2025, um estudo publicado no Journal of Veterinary Pharmacology and Therapeutics, liderado por Alejandra Mondino, investigou o que acontece quando comprimidos de levetiracetam de liberação prolongada são partidos ou triturados antes da administração.

Os pesquisadores compararam o comportamento desses comprimidos alterados com o da formulação original intacta, analisando principalmente a forma como o medicamento se dissolvia ao longo do tempo. Os resultados mostraram que modificar fisicamente o comprimido foi suficiente para alterar seu perfil de dissolução, um fator diretamente relacionado à velocidade com que o princípio ativo fica disponível para absorção pelo organismo.

Embora o estudo tenha utilizado o levetiracetam como modelo, os achados ajudam a ilustrar um princípio farmacêutico importante: medicamentos de liberação prolongada são desenvolvidos para liberar o fármaco de maneira gradual e controlada durante várias horas. Quando essa estrutura é rompida, o sistema projetado para controlar a liberação pode deixar de funcionar como previsto.

Na prática, isso significa que parte da dose pode ser disponibilizada mais rapidamente do que o planejado, reduzindo a duração do efeito terapêutico e aumentando o risco de oscilações na concentração do medicamento no organismo. Os resultados chamam atenção para a importância de respeitar as orientações de uso e evitar partir ou triturar comprimidos que não foram desenvolvidos para esse tipo de manipulação.

Como saber se um comprimido pode ser dividido?

A regra mais segura é nunca assumir que um comprimido pode ser partido apenas porque parece fácil fazê-lo.

Antes de dividir qualquer medicamento:

• Consulte a bula.

• Peça orientação ao farmacêutico.

• Converse com o médico responsável pelo tratamento.

Em muitos casos, existem apresentações com dosagens menores ou formas farmacêuticas mais adequadas para quem tem dificuldade de engolir comprimidos.

Partir ou mastigar um comprimido sem verificar se ele foi desenvolvido para isso pode comprometer toda a estratégia farmacêutica criada para o medicamento. Em alguns casos, o efeito pode simplesmente diminuir. Em outros, a concentração liberada pode se tornar inadequada para o organismo.

Por isso, antes de transformar um comprimido em duas partes, vale lembrar que aquela camada externa pode estar desempenhando um papel muito mais importante do que parece.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn