Cientistas descobrem proteína que faz câncer de pele crescer e escapar da imunidade

Proteína HOXD13 ajuda tumor a crescer e se esconder. (Foto: Felicia Manolache via Canva)
Proteína HOXD13 ajuda tumor a crescer e se esconder. (Foto: Felicia Manolache via Canva)

Uma descoberta recente pode transformar a forma como o melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele, é compreendido e tratado. Cientistas identificaram uma espécie de “interruptor mestre” molecular que não apenas acelera o crescimento do tumor, mas também ajuda a doença a driblar o sistema imunológico. O achado abre caminho para novas estratégias terapêuticas mais eficazes e direcionadas.

O papel duplo de uma proteína-chave no melanoma

De acordo com o estudo publicado na revista Cancer Discovery, liderado por Pietro Berico em 2026, a proteína HOXD13 exerce uma função central no avanço do melanoma. Trata-se de um fator de transcrição, ou seja, uma molécula que regula a forma como os genes são ativados no organismo.

O que chama atenção é seu papel duplo:

  • Estimula o crescimento tumoral
  • Reduz a eficácia do sistema imunológico

Em outras palavras, o HOXD13 atua como um verdadeiro facilitador do câncer, promovendo tanto sua expansão quanto sua proteção contra as defesas naturais do corpo.

Como o tumor “se alimenta”: o reforço do fluxo sanguíneo

Um dos mecanismos mais importantes ativados pelo HOXD13 é a angiogênese, processo que leva à formação de novos vasos sanguíneos. Isso permite que o tumor receba mais oxigênio e nutrientes, favorecendo seu crescimento acelerado.

Entre as vias biológicas ativadas estão:

  • VEGF: estimula diretamente a formação de vasos
  • SEMA3A: participa da organização vascular
  • CD73: ligado à modulação do ambiente tumoral

Quando os pesquisadores reduziram a atividade do HOXD13 em experimentos, houve uma queda significativa no tamanho dos tumores, reforçando seu papel central na doença.

A barreira invisível contra o sistema imunológico

Melanoma usa proteína para driblar o sistema imune. (Foto: Getty Images via Canva)
Melanoma usa proteína para driblar o sistema imune. (Foto: Getty Images via Canva)

Além de alimentar o tumor, o HOXD13 também atua como um escudo imunológico. O estudo mostrou que pacientes com altos níveis dessa proteína apresentavam:

  • Menor quantidade de células T citotóxicas
  • Dificuldade dessas células em penetrar o tumor

Esse efeito está ligado ao aumento da adenosina, uma substância que enfraquece a resposta imune. O resultado é um ambiente tumoral protegido, onde o câncer consegue evoluir com menos interferência do organismo.

Por outro lado, ao bloquear o HOXD13, os cientistas observaram um aumento na infiltração de células T, indicando uma retomada da capacidade do corpo de combater o tumor.

Terapias combinadas mais inteligentes

Os achados sugerem que o futuro do tratamento pode estar na combinação de abordagens terapêuticas. Atualmente, já existem ensaios clínicos testando:

  • Inibidores de VEGF
  • Bloqueadores de receptores de adenosina
  • Terapias de imunoterapia

A proposta agora é integrar essas estratégias para atingir tumores com alta expressão de HOXD13 de forma mais eficaz.

Além disso, os pesquisadores apontam que esse mesmo mecanismo pode estar presente em outros cânceres, como:

  • Glioblastomas
  • Sarcomas
  • Osteossarcomas

O que essa descoberta significa para a medicina 

A pesquisa analisou mais de 200 amostras de pacientes dos Estados Unidos, Brasil e México. Além disso, experimentos em células humanas e modelos animais confirmaram o papel central do HOXD13 na progressão do melanoma.

O estudo reforça uma tendência crescente na medicina: o avanço da medicina personalizada, que busca entender os mecanismos específicos de cada tumor para oferecer tratamentos mais precisos.

Essa nova evidência científica destaca como o câncer pode ser altamente estratégico, utilizando mecanismos sofisticados para crescer e sobreviver. Ao mesmo tempo, revela um ponto vulnerável que pode ser explorado pela ciência.

Com isso, o HOXD13 surge como um alvo promissor para terapias futuras, podendo aumentar a eficácia dos tratamentos e melhorar o prognóstico de pacientes com melanoma.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn