Sonda da NASA detecta possível relâmpago inédito em Marte

Imagem capturada pelo "Opportunity" da NASA (Imagem: The Everett Collection via Canva)
Imagem capturada pelo "Opportunity" da NASA (Imagem: The Everett Collection via Canva)

Durante décadas, a ideia de relâmpagos em Marte parecia improvável. Afinal, o planeta vermelho não possui um campo magnético global como a Terra. No entanto, uma descoberta recente mudou esse cenário. A sonda MAVEN, da NASA, identificou pela primeira vez um sinal eletromagnético compatível com atividade semelhante a raios na atmosfera marciana.

O estudo, publicado na Science Advances por František Němec e colaboradores, analisou mais de uma década de dados coletados pela missão orbital. Entre mais de 108 mil medições, apenas um evento apresentou características típicas das chamadas ondas de whistler, sinais de rádio de baixa frequência associados a descargas elétricas. Principais pontos da descoberta:

  • Detecção de uma onda eletromagnética dispersiva com duração de 0,4 segundos;
  • Frequência atingindo cerca de 110 Hz;
  • Propagação plausível da superfície até a órbita;
  • Evento extremamente raro diante do volume total de dados analisados.

Como um planeta sem magnetosfera pode gerar esse sinal?

Na Terra, as ondas de whistler se propagam facilmente pela magnetosfera, guiadas pelas linhas do campo magnético. Marte, por outro lado, perdeu seu campo magnético global bilhões de anos atrás. Ainda assim, o planeta mantém campos magnéticos crustais localizados, principalmente no hemisfério sul.

Espectrograma mostra assobio disperso marciano até 110 Hz (Imagem: František Němec et al./ Science Advances (2026)/ CC BY-SA 4.0)
Espectrograma mostra assobio disperso marciano até 110 Hz (Imagem: František Němec et al./ Science Advances (2026)/ CC BY-SA 4.0)

Essas regiões magnetizadas podem funcionar como “corredores” para a propagação de sinais elétricos, desde que condições muito específicas estejam presentes. Além disso, tempestades de poeira marcianas oferecem um mecanismo plausível para gerar descargas elétricas. O atrito entre partículas de poeira pode acumular carga elétrica, favorecendo processos semelhantes aos observados em redemoinhos e erupções vulcânicas na Terra.

Um evento raríssimo no lugar certo e na hora certa

A raridade da detecção chama atenção, pois, para que o sinal fosse captado, diversos fatores precisaram coincidir simultaneamente: a presença de um campo magnético local forte e orientado quase verticalmente, condições ionosféricas noturnas adequadas, a posição orbital exata da sonda e um ambiente atmosférico favorável à descarga elétrica

Além disso, modelagens teóricas indicam que o sinal pode ter se originado na superfície marciana e se propagado até a espaçonave. Ainda assim, não é possível determinar se a descarga ocorreu durante uma tempestade de poeira nem identificar com precisão sua localização.

O que isso muda na exploração de Marte?

A descoberta amplia a compreensão sobre a atmosfera marciana e os processos elétricos que podem ocorrer mesmo sem uma magnetosfera global. Além disso, oferece dados relevantes para o planejamento de futuras missões, especialmente no que diz respeito à interação entre poeira, eletricidade e equipamentos robóticos.

Desse jeito, Marte pode ser menos eletricamente silencioso do que se imaginava. Mesmo raro, o registro sugere que o planeta vermelho ainda guarda fenômenos ativos e complexos, reforçando sua importância para a planetologia comparada e para o estudo das atmosferas planetárias.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes