Zero açúcar, mas a que custo? O impacto dos adoçantes na sua saúde intestinal

Adoçantes podem alterar a microbiota intestinal. (Foto: Towfiqu Barbhuiya via Canva)
Adoçantes podem alterar a microbiota intestinal. (Foto: Towfiqu Barbhuiya via Canva)

Trocar o açúcar por adoçantes parece uma escolha simples e inteligente. Afinal, a promessa é sedutora: manter o sabor doce sem adicionar calorias. No entanto, a ciência vem mostrando que a história pode ser mais complexa. O que acontece quando o organismo recebe o estímulo do sabor doce, mas não encontra a energia que normalmente acompanha esse sinal?

Pesquisas recentes indicam que alguns adoçantes artificiais, como sucralose e sacarina, podem influenciar a composição da microbiota intestinal e modificar a forma como o intestino se comunica com o cérebro. Essa interação faz parte do chamado eixo intestino-cérebro, um sistema de comunicação que participa do controle do apetite, da saciedade e até das preferências alimentares.

O intestino também sente o sabor doce

Muitas pessoas acreditam que os receptores de sabor existem apenas na língua. Porém, eles também estão espalhados pelo trato gastrointestinal.

Quando consumimos açúcar, esses receptores ajudam a desencadear uma série de respostas fisiológicas, incluindo a liberação de hormônios relacionados à saciedade e ao metabolismo da glicose. Com os adoçantes artificiais, esse processo pode ocorrer de maneira diferente.

O problema é que o cérebro recebe a mensagem de que algo doce foi ingerido, mas nem sempre recebe a energia esperada. Ao longo do tempo, essa discrepância pode interferir nos mecanismos que regulam fome e recompensa alimentar.

A microbiota intestinal entra na equação

Nos últimos anos, a microbiota passou a ser reconhecida como um verdadeiro órgão metabólico. Trilhões de microrganismos participam da digestão, da produção de metabólitos benéficos e da comunicação com o sistema nervoso.

Uma revisão publicada na revista International Journal of Molecular Sciences, em outubro de 2025, liderada por Roberto Coccurello, analisou evidências sobre o impacto dos adoçantes artificiais no eixo intestino-cérebro. O trabalho descreve que determinadas substâncias podem favorecer alterações na composição bacteriana intestinal, reduzindo microrganismos associados à saúde metabólica e modificando a produção de compostos importantes para a comunicação entre intestino e cérebro.

Essas alterações são frequentemente chamadas de disbiose, um desequilíbrio da microbiota que pode afetar diversas funções do organismo.

O desejo por doces pode aumentar?

Um dos aspectos mais intrigantes estudados atualmente envolve os circuitos cerebrais de recompensa.

Um estudo publicado na revista Nature Metabolism, em março de 2025, liderado por Sandhya P. Chakravartti, investigou os efeitos dos adoçantes não calóricos sobre regiões cerebrais relacionadas ao apetite. Os resultados sugeriram que a exposição a essas substâncias pode provocar respostas diferentes das observadas após o consumo de açúcar, influenciando mecanismos ligados ao controle da fome e à busca por alimentos doces.

Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas relatam sentir mais vontade de consumir doces mesmo após ingerirem produtos adoçados artificialmente.

O que diz a Organização Mundial da Saúde?

Em suas diretrizes mais recentes, a Organização Mundial da Saúde recomenda cautela no uso de adoçantes sem açúcar como estratégia para perda de peso a longo prazo. A entidade destaca que as evidências atuais não demonstram benefícios consistentes para o controle do peso corporal em uso prolongado e que mais pesquisas são necessárias para compreender seus efeitos metabólicos e intestinais.

Isso não significa que os adoçantes sejam necessariamente prejudiciais para todas as pessoas. Na verdade, os resultados variam conforme o tipo de adoçante, a dose consumida e as características individuais da microbiota.

O equilíbrio continua sendo a melhor escolha

A ciência atual mostra que a discussão não deve ser reduzida a “açúcar versus adoçante”. O cenário é muito mais complexo.

Alguns estudos apontam possíveis alterações na microbiota e na sinalização do eixo intestino-cérebro, enquanto outros observam efeitos neutros ou até benefícios em contextos específicos. Um exemplo é o estudo SWEET, publicado na Nature Metabolism em outubro de 2025, liderado por Michelle D. Pang, que encontrou mudanças na microbiota sem evidências de problemas de segurança em indivíduos com sobrepeso que substituíram parte do açúcar por adoçantes dentro de uma alimentação equilibrada.

Portanto, a melhor estratégia continua sendo priorizar uma alimentação baseada em alimentos minimamente processados, reduzindo gradualmente a dependência do sabor excessivamente doce, seja ele proveniente do açúcar ou dos seus substitutos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn