Ao primeiro espirro, muita gente corre para dissolver uma pastilha efervescente de 1 grama de vitamina C em um copo de água. A cena é tão comum que parece quase um ritual contra gripes e resfriados. Porém, quando analisamos as evidências científicas mais robustas disponíveis, a história é bem diferente do que a maioria imagina.
Conhecida cientificamente como ácido ascórbico, a vitamina C participa de vários processos importantes para o funcionamento do organismo. Ela participa da produção de colágeno, atua como antioxidante e contribui para o funcionamento adequado do sistema imunológico. No entanto, isso não significa que tomar grandes doses ao adoecer seja capaz de interromper uma infecção respiratória já instalada.
Quando o resfriado chega, a vitamina C já não faz milagres
Uma das análises mais completas sobre o tema foi publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews, conduzida por Harri Hemilä e Elizabeth Chalker, com atualização publicada em janeiro de 2013. A revisão reuniu dezenas de estudos clínicos envolvendo milhares de participantes.
Os resultados mostraram que a suplementação regular de vitamina C não reduziu a incidência de resfriados na população geral. Em outras palavras, tomar vitamina C diariamente não impediu que a maioria das pessoas adoecesse.
Por outro lado, os pesquisadores observaram um efeito modesto na duração dos sintomas. Entre adultos que já utilizavam vitamina C regularmente antes de adoecer, os episódios de resfriado duraram cerca de 8% menos tempo, em média.
O detalhe importante é que esse benefício foi observado em quem fazia suplementação contínua. Quando a vitamina C era iniciada apenas após o surgimento dos sintomas, os estudos não encontraram resultados consistentes.
O limite invisível da absorção intestinal
Outro ponto pouco conhecido envolve a capacidade do organismo de absorver vitamina C.
O intestino utiliza proteínas transportadoras chamadas SVCT1 para captar o nutriente. Contudo, esses mecanismos possuem uma capacidade limitada.
Em geral, doses entre 200 mg e 400 mg por vez já alcançam níveis próximos da saturação. A partir desse ponto, a eficiência de absorção cai progressivamente.
Isso significa que ingerir:
- 1 g de vitamina C de uma só vez
- 2 g de vitamina C em uma única dose
não faz com que o corpo aproveite tudo. Grande parte do excesso simplesmente circula até ser eliminada pelos rins.
É justamente daí que surgiu a expressão popular “xixi caro”.
O excesso pode trazer consequências
Por ser uma vitamina hidrossolúvel, a vitamina C raramente provoca intoxicações graves em pessoas saudáveis. Ainda assim, consumir quantidades elevadas de forma frequente não é totalmente isento de riscos.
Parte do ácido ascórbico é convertida em oxalato, substância que pode participar da formação de cálculos renais de oxalato de cálcio em indivíduos suscetíveis.
Além disso, doses muito altas podem causar:
- desconforto gastrointestinal;
- diarreia;
- náuseas;
- aumento da carga de trabalho renal.
Por esse motivo, mais nem sempre significa melhor quando o assunto é suplementação.
O que vale a pena lembrar
A vitamina C continua sendo um nutriente importante para a saúde. Entretanto, as evidências científicas indicam que ela não funciona como uma solução rápida para interromper um resfriado já em andamento.
A melhor estratégia continua sendo manter uma alimentação equilibrada, sono adequado, atividade física regular e, quando necessário, utilizar suplementos de forma orientada. Afinal, quando o organismo já atingiu sua capacidade de absorção, o excesso de vitamina C tende a seguir um caminho simples: sair pela urina sem oferecer benefícios adicionais.

