Vigorexia: o transtorno silencioso da busca pelo corpo ideal 

Vigorexia afeta a percepção da imagem corporal. (Foto: Getty Images via Canva)
Vigorexia afeta a percepção da imagem corporal. (Foto: Getty Images via Canva)

A vigorexia, também conhecida como dismorfia muscular, é um transtorno de imagem corporal em que a pessoa desenvolve uma preocupação intensa e persistente com o tamanho e a definição muscular.

Mesmo quando há desenvolvimento físico evidente, o indivíduo pode se perceber como “insuficiente”, levando a comportamentos extremos relacionados a treino, alimentação e aparência.

Esse quadro é especialmente observado em jovens e praticantes de atividade física intensa, e vem sendo cada vez mais estudado na literatura científica recente.

O que um estudo recente revela sobre a vigorexia

Uma pesquisa publicada na Revista Mexicana de Trastornos Alimentarios (2025), conduzida por Luis Rosendo Rucobo Gurrola e María Montserrat López Ortiz, analisou fatores associados à dismorfia muscular em atletas universitários.

O estudo identificou que a vigorexia está ligada a uma combinação de elementos biológicos, psicológicos e socioculturais, além de fatores comportamentais relacionados ao treino e à autoestima.

Entre os principais achados, destacam-se:

  • Quase metade dos participantes apresentou sinais de dismorfia muscular
  • Relação direta com baixa autoestima
  • Influência do tempo de treino
  • Impacto do uso de redes sociais
  • Diferenças relacionadas ao sexo e tipo de esporte praticado

Esses dados mostram que o transtorno não está ligado apenas ao corpo, mas também à forma como a pessoa se percebe e se compara socialmente.

Como a vigorexia se desenvolve

A vigorexia não surge de forma repentina. Ela costuma evoluir gradualmente a partir de uma combinação de fatores como:

  • insatisfação constante com a própria imagem
  • pressão estética e comparação com outras pessoas
  • busca por padrões irreais de corpo
  • foco excessivo em desempenho físico
  • reforço de hábitos rígidos de treino e dieta

Com o tempo, o comportamento deixa de ser apenas disciplina e passa a ser uma necessidade emocional de controle corporal.

Quando o treino deixa de ser saudável?

Um dos principais sinais de alerta é quando a rotina de exercícios começa a impactar outras áreas da vida.

Entre os comportamentos mais comuns estão:

  • treinar mesmo com dor ou lesão
  • sensação de culpa ao faltar academia
  • dificuldade em descansar
  • insatisfação constante com o físico
  • aumento progressivo e compulsivo do treino

Nesses casos, o exercício deixa de ser apenas uma prática de saúde e passa a ter caráter obsessivo.

O papel das redes sociais

O estudo de Rucobo Gurrola (2025) também destaca a influência das redes sociais no desenvolvimento da vigorexia.

A exposição constante a corpos idealizados pode intensificar:

  • comparação corporal
  • insatisfação com a própria aparência
  • pressão por resultados rápidos
  • distorção da autoimagem

Esse ambiente reforça padrões muitas vezes irreais de corpo perfeito.

Impactos emocionais

Além dos efeitos físicos, a vigorexia pode afetar diretamente a saúde mental, incluindo:

  • ansiedade
  • baixa autoestima persistente
  • isolamento social
  • irritabilidade
  • dificuldade de satisfação pessoal

Mesmo com evolução muscular visível, a percepção interna continua negativa.

Reconhecer os sinais precocemente é essencial para evitar que a busca pelo corpo ideal se transforme em um padrão prejudicial de comportamento.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn