Uma bactéria do intestino produz uma gordura capaz de reduzir placas nas artérias 

Gordura produzida por bactérias intestinais reduziu placas arteriais

O intestino pode estar produzindo substâncias capazes de influenciar diretamente a saúde das artérias. Em um novo estudo, pesquisadores identificaram uma molécula fabricada por bactérias da microbiota intestinal que apresentou um efeito surpreendente contra a aterosclerose em camundongos.

A descoberta envolve o ácido pentadecanoico, conhecido pela sigla C15:0 ou PA, uma gordura saturada de cadeia ímpar. Embora os ácidos graxos sejam frequentemente associados à alimentação e ao metabolismo, este trabalho mostra que alguns deles também podem surgir da atividade de microrganismos que vivem no intestino.

A bactéria que chamou atenção por outro motivo

Os pesquisadores partiram de uma observação interessante: bactérias do gênero Bacteroides aparecem em menor quantidade em pessoas com aterosclerose. Para investigar se essa relação poderia ter algum efeito causal, eles utilizaram camundongos como modelo experimental e administraram a espécie Bacteroides uniformis.

O resultado foi uma alteração importante no metabolismo do colesterol. A bactéria aumentou a atividade do receptor de LDL no fígado, estrutura fundamental para retirar partículas de colesterol LDL da circulação.

No entanto, havia uma questão ainda mais interessante: qual substância produzida pela bactéria poderia estar provocando esse efeito?

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Uma análise orientada pela atividade biológica apontou o ácido pentadecanoico como um dos principais responsáveis.

Uma gordura que mudou o caminho do colesterol

Quando os animais receberam suplementação com C15:0, a quantidade de placas ateroscleróticas caiu aproximadamente pela metade. Além disso, houve melhora significativa no perfil de lipídios presentes no sangue.

O estudo foi publicado na revista Nature, em 8 de outubro de 2026, tendo Chao Yin como primeiro autor, junto a dezenas de pesquisadores. A investigação também procurou entender como essa molécula poderia produzir seus efeitos.

O mecanismo identificado envolve uma enzima conhecida como HMG-CoA redutase, peça central da produção de colesterol pelo fígado. O ácido pentadecanoico foi capaz de inibir diretamente essa enzima.

Com menor produção hepática de colesterol, o organismo aumenta a remoção do LDL presente no sangue, favorecendo uma redução da disponibilidade dessas partículas para participar do processo de formação das placas.

O intestino e o fígado conversando à distância

A descoberta ganha ainda mais importância porque o C15:0 não parece ser produzido por uma única bactéria. A análise de 100 cepas bacterianas intestinais revelou que diferentes gêneros pertencentes ao filo Bacteroidota conseguem produzir esse ácido graxo.

Além disso, os pesquisadores observaram que os níveis de ácido pentadecanoico estavam acentuadamente reduzidos em pessoas com dislipidemia, condição caracterizada por alterações nas concentrações de lipídios no sangue.

Esse resultado ajuda a ilustrar como o eixo intestino fígado pode funcionar. Bactérias intestinais produzem metabólitos, essas moléculas entram em contato com o organismo e podem modificar processos metabólicos em órgãos distantes.

É importante destacar que os resultados ainda não significam que consumir alimentos ou suplementos contendo C15:0 previna ou trate a aterosclerose em seres humanos. A maior parte das evidências apresentadas vem de modelos experimentais em camundongos, e estudos clínicos serão necessários para determinar se o mecanismo também funciona de maneira segura e eficaz em pessoas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn