Imagine olhar para o céu e encontrar buracos negros supermassivos já plenamente ativos quando o Universo ainda era praticamente um bebê. Foi exatamente isso que astrônomos acabam de fazer ao identificar 31 dos quasares mais antigos já vistos, incluindo os dois mais remotos conhecidos até agora. O detalhe que torna a descoberta tão intrigante é o momento em que esses objetos já brilhavam: quando o cosmos tinha apenas cerca de 670 milhões de anos. Em escala cósmica, isso é quase imediatamente após o Big Bang.
A descoberta foi divulgada em 9 de julho de 2026 pela Universidade da Califórnia em Santa Barbara e se baseia em resultados publicados na revista Astronomy & Astrophysics. O estudo mostra que esses quasares já abrigavam buracos negros com massas de centenas de milhões a bilhões de sóis em uma fase extremamente precoce da história cósmica. E é justamente aí que surge o problema: como estruturas tão gigantescas cresceram tão rápido?
O que são quasares e por que eles importam tanto
Os quasares estão entre os objetos mais brilhantes do Universo. Eles aparecem quando um buraco negro supermassivo no centro de uma galáxia começa a devorar grandes quantidades de matéria. Esse material forma um disco extremamente quente ao redor do buraco negro e libera uma quantidade colossal de energia, visível a distâncias absurdamente grandes.
Na prática, estudar quasares muito antigos é uma forma de observar o passado remoto do cosmos. Eles funcionam como faróis cósmicos, iluminando uma época em que as primeiras galáxias estavam surgindo e o Universo passava por transformações profundas.
Esses objetos ajudam a responder perguntas centrais, como:
- quando os primeiros buracos negros supermassivos surgiram;
- como as galáxias primitivas evoluíram;
- o que aconteceu durante a época da reionização, um dos capítulos mais importantes da história do Universo.
O enigma dos monstros que cresceram cedo demais
O grande choque dessa descoberta está no tamanho desses buracos negros. Modelos atuais de formação cósmica conseguem explicar o surgimento de estruturas ao longo de bilhões de anos, mas têm muito mais dificuldade quando precisam produzir gigantes desse porte em menos de 1 bilhão de anos.
Entre os 31 novos quasares, 14 apresentam desvio para o vermelho igual ou superior a 7, o que significa que são vistos em uma fase em que o Universo tinha menos de 6% da idade atual. Os dois recordistas possuem redshifts de 7,69 e 7,77, tornando-se os quasares mais antigos já detectados.
Isso importa porque, quanto mais se recua no tempo, mais improvável parece encontrar buracos negros tão massivos. Em tese, o Universo jovem ainda estaria montando suas primeiras grandes estruturas. Mesmo assim, esses “monstros cósmicos” já estavam lá, ativos e brilhando com intensidade comparável à luz de cerca de um trilhão de sóis.
Como o telescópio Euclid mudou o jogo
Encontrar quasares tão antigos é uma tarefa extremamente difícil. Eles são raros, distantes e sua luz chega até nós muito alterada pela expansão do Universo. À medida que o espaço se expande, a radiação emitida por esses objetos é deslocada para comprimentos de onda mais longos, especialmente no infravermelho próximo. Isso complica a detecção a partir da Terra, já que a própria atmosfera emite brilho nessa faixa do espectro.
Foi aí que entrou o telescópio espacial Euclid, lançado pela Agência Espacial Europeia em 2023. Observando o céu a partir do espaço, ele consegue escapar das limitações da atmosfera terrestre e mapear grandes áreas com alta sensibilidade. O resultado foi um salto impressionante: em apenas um ano, o Euclid encontrou mais quasares extremamente antigos do que toda a busca acumulada em muitos anos anteriores.
Uma pista valiosa sobre o primeiro bilhão de anos do cosmos
Mais do que ampliar uma lista de objetos raros, essa descoberta oferece um retrato muito mais rico do Universo primitivo. Um dos quasares recém-estudados, por exemplo, parece estar dentro de uma galáxia rica em gás e poeira, em intensa formação estelar. Isso sugere que os primeiros buracos negros gigantes podem ter nascido em ambientes caóticos, densos e muito ativos.
Agora, o próximo passo é usar observatórios como o James Webb e o ALMA para investigar a massa desses buracos negros, a composição química do gás ao redor e o ritmo de formação de estrelas em suas galáxias hospedeiras. Cada novo dado pode aproximar a ciência de uma resposta para um dos maiores mistérios da astrofísica moderna: como o Universo conseguiu fabricar gigantes tão cedo, quando mal havia saído da infância?
