Planetas sem núcleo e sem manto podem ser comuns na Via Láctea

Novo estudo sugere planetas gigantes sem núcleo sólido e interiores totalmente fluidos (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)
Novo estudo sugere planetas gigantes sem núcleo sólido e interiores totalmente fluidos (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)

Durante décadas, os cientistas acreditaram que planetas rochosos seguiam uma estrutura relativamente padronizada: um núcleo metálico, um manto rochoso e uma camada externa mais fina. A Terra é o exemplo clássico desse modelo. No entanto, uma nova pesquisa indica que muitos mundos da galáxia podem ser radicalmente diferentes por dentro.

O estudo, submetido ao Astrophysical Journal e disponível no arXiv, propõe que diversos sub-Netunos e super-Terras talvez não possuam núcleo nem manto definidos. Em vez disso, esses planetas poderiam apresentar um interior totalmente misturado e fluido. A hipótese pode transformar a compreensão atual sobre a formação planetária. Entre os principais pontos da pesquisa estão:

  • Alguns planetas podem ter interiores homogêneos;
  • Ferro, silicato e hidrogênio poderiam se misturar completamente;
  • O modelo ajuda a explicar anomalias observadas por telescópios;
  • A Terra talvez seja menos comum do que se imaginava.

O interior dos planetas pode ser muito mais estranho

Os chamados sub-Netunos estão entre os exoplanetas mais encontrados pela astronomia moderna. Eles possuem tamanho intermediário entre a Terra e Netuno e não existem no Sistema Solar.

Até agora, os modelos tradicionais sugeriam que esses mundos se organizavam internamente da mesma forma que a Terra: metais mais densos afundariam formando o núcleo, enquanto materiais rochosos permaneceriam acima.

Contudo, o novo estudo mostra que temperaturas extremas superiores a 4 mil Kelvin podem alterar completamente esse comportamento físico. Nessas condições, hidrogênio, ferro e silicato deixariam de existir em camadas separadas, formando uma espécie de fluido gigantesco e turbulento.

Sem núcleo, sem manto e com hidrogênio “borbulhando”

Segundo os pesquisadores, basta uma quantidade relativamente pequena de hidrogênio para transformar toda a estrutura interna do planeta.

Nesse cenário, o hidrogênio ficaria dissolvido nas camadas profundas do planeta jovem. Conforme o corpo celeste esfria ao longo de milhões de anos, esse gás começaria lentamente a migrar para a superfície, aumentando temporariamente o tamanho aparente do planeta.

Essa ideia pode ajudar a explicar um fenômeno conhecido como “lacuna de raio”, observado em exoplanetas detectados pelos telescópios Kepler e James Webb Space Telescope.

A Terra pode ser a verdadeira exceção

O estudo sugere uma possibilidade intrigante: a estrutura interna terrestre talvez não represente o padrão mais comum da galáxia.

Embora a hipótese ainda dependa de testes experimentais mais avançados, ela reforça como o universo pode ser muito mais diverso do que imaginamos. Afinal, as condições extremas presentes em outros sistemas planetários podem gerar mundos completamente diferentes daqueles conhecidos no Sistema Solar.

Se confirmada, a descoberta mudará não apenas a forma como os cientistas entendem os exoplanetas, mas também a posição da própria Terra dentro do cenário cósmico.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes