Pessoas com proteção genética contra a malária podem abrigar parasitas diferentes 

Parasita da malária infecta as células do sangue e pode causar a doença. (Imagem: Getty Images)

Uma característica genética que ajuda a proteger contra as formas graves da malária também pode estar relacionada aos tipos de parasitas encontrados no organismo. Essa foi a descoberta de um estudo realizado em Camarões, que investigou como uma variação da hemoglobina humana se relaciona com a genética do Plasmodium falciparum, um dos principais responsáveis pela doença.

Os resultados mostram que a proteção contra a malária é mais complexa do que parece. Mesmo quando duas pessoas apresentam a infecção sem sintomas, os parasitas encontrados em seus organismos podem apresentar diferenças genéticas associadas às características do hospedeiro.

Alteração no sangue ajuda a proteger contra casos graves

A hemoglobina é uma proteína presente nos glóbulos vermelhos, também chamados de hemácias. Sua principal função é transportar oxigênio pelo corpo. Entretanto, uma alteração genética pode modificar sua estrutura e dar origem à hemoglobina S (HbS), associada à anemia falciforme em determinadas condições.

Pessoas que herdam uma cópia do gene da hemoglobina S e outra cópia habitual apresentam o genótipo HbAS, conhecido como traço falciforme. Em geral, essas pessoas têm menor risco de desenvolver formas graves da malária causada pelo Plasmodium falciparum.

Isso não significa, porém, que estejam imunes à doença. A proteção genética reduz determinados riscos, mas não impede necessariamente que o parasita entre no organismo e provoque uma infecção.

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Além disso, pesquisadores investigam como essa característica humana pode influenciar a relação entre o hospedeiro e o microrganismo.

Pesquisa encontrou diferenças nos parasitas presentes no organismo

Estudo associa genética humana a variantes da malária. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Publicado em 8 de outubro de 2026, na revista científica Nature Microbiology, o estudo foi liderado por Helena D. Hopson e contou com a participação de outros pesquisadores.

A equipe avaliou 2.246 escolares saudáveis em uma região de Camarões com transmissão elevada da malária. Desse total, foram analisadas informações genéticas humanas e do parasita em 1.701 infecções assintomáticas por Plasmodium falciparum.

Os pesquisadores compararam pessoas com HbAS, que possuem uma cópia da variante HbS, com indivíduos HbAA, que não apresentam essa alteração genética.

A frequência de infecções assintomáticas foi semelhante entre os dois grupos. Entretanto, a análise revelou uma diferença importante: a presença da hemoglobina S estava associada a determinadas variantes genéticas do parasita.

Essas variantes, identificadas como Pfsa+, foram encontradas com maior associação ao genótipo HbS em duas regiões do material genético do microrganismo, chamadas Pfsa1 e Pfsa3.

O resultado sugere que a genética humana pode influenciar quais variantes do parasita são encontradas durante infecções sem sintomas. No entanto, a pesquisa não demonstrou que a hemoglobina S provoque diretamente essas alterações nem que todas as pessoas com traço falciforme abriguem parasitas desse tipo.

Por que alguns parasitas podem ser favorecidos?

Uma possibilidade levantada pelos resultados é que determinadas variantes do Plasmodium falciparum tenham alguma vantagem em pessoas com hemoglobina S. Esse fenômeno poderia contribuir para explicar por que a relação entre a variante humana e a gravidade da malária depende também das características genéticas do parasita.

Os cientistas identificaram indícios de que a proteção associada à HbS pode atuar de maneiras diferentes conforme a variante do microrganismo.

Nesse contexto, é importante distinguir dois conceitos:

  • Resistência à infecção: capacidade do organismo de dificultar a infecção ou limitar a presença do parasita.
  • Tolerância à doença: capacidade de sofrer menos danos causados pela infecção, mesmo quando o parasita está presente.

De acordo com os resultados, a HbS pode oferecer proteção antes do aparecimento dos sintomas contra parasitas sem as variantes Pfsa+. Já as variantes Pfsa+ podem estar relacionadas à menor ocorrência de malária sintomática observada em portadores da hemoglobina S.

Essas interpretações ainda precisam ser investigadas em pesquisas adicionais para esclarecer os mecanismos envolvidos.

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Descoberta ajuda a entender a evolução da malária

A relação entre a genética humana e a malária é um exemplo de como uma doença infecciosa pode influenciar a evolução das populações ao longo das gerações. Em regiões onde a transmissão é frequente, variantes genéticas que reduzem o risco de formas graves da doença podem oferecer uma vantagem de sobrevivência.

Entretanto, o parasita também apresenta diversidade genética. A interação entre essas diferenças pode influenciar a maneira como a infecção se desenvolve e os sintomas que aparecem.

O estudo publicado na Nature Microbiology amplia o conhecimento sobre essa relação ao mostrar que a proteção genética contra a malária pode estar associada não apenas à resposta do organismo humano, mas também às variantes do parasita presentes na infecção.

Os resultados não significam que a hemoglobina falciforme elimine o risco da doença ou que determinadas variantes do parasita sejam invulneráveis. Eles indicam que a interação entre seres humanos e Plasmodium falciparum é complexa e merece novas investigações.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn