Ômega-3 mostra efeito inédito ao atingir células cancerígenas mais difíceis 

Ômega-3 causa ferroptose em células de câncer de cólon. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Ômega-3 causa ferroptose em células de câncer de cólon. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Uma descoberta recente está chamando a atenção da comunidade científica ao revelar que um tipo específico de ômega-3 pode agir diretamente contra células do câncer. O estudo publicado na revista científica Cell Death & Disease, liderado por Laura di Blasio e divulgado em abril de 2026, trouxe evidências de que o ácido docosahexaenoico (DHA) pode desencadear um processo de morte celular altamente específico em tumores de câncer colorretal.

Essa descoberta não apenas amplia o entendimento sobre os benefícios dos ácidos graxos, mas também abre novas possibilidades no tratamento de tumores resistentes.

Um mecanismo diferente de morte celular

Ferroptose: o novo mecanismo do Ômega-3 contra o câncer. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Ferroptose: o novo mecanismo do Ômega-3 contra o câncer. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Ao contrário de muitos tratamentos tradicionais, o DHA não atua por meio da apoptose, que é a morte celular programada mais conhecida. Em vez disso, ele induz um processo chamado ferroptose, um tipo de morte celular associado ao acúmulo de radicais livres e peróxidos lipídicos.

Esse detalhe é crucial. Isso porque muitas células cancerígenas conseguem escapar da apoptose, tornando-se resistentes à quimioterapia. Nesse cenário, a ferroptose surge como uma alternativa promissora.

Além disso, os pesquisadores observaram que o DHA:

  • Aumenta o estresse oxidativo dentro das células tumorais
  • Se concentra em regiões estratégicas como mitocôndrias e retículo endoplasmático
  • Provoca danos que levam à morte das células cancerígenas

Testes com células reais de pacientes

Um dos pontos mais relevantes do estudo foi o uso de organoides tumorais derivados de pacientes, uma tecnologia que replica tumores reais em laboratório. Isso permite resultados mais próximos da realidade clínica.

Os testes mostraram que o DHA reduziu significativamente a viabilidade das células de câncer colorretal, independentemente de mutações genéticas comuns como KRAS e TP53.

Por outro lado, células saudáveis do cólon foram muito menos afetadas. Esse contraste indica um possível efeito seletivo, algo altamente desejado em terapias contra o câncer.

Potencial para turbinar a quimioterapia

Outro achado importante foi a capacidade do DHA de atuar em conjunto com a oxaliplatina, um dos quimioterápicos mais usados no tratamento do câncer colorretal.

Os resultados indicam que o DHA pode:

  • Aumentar a eficácia da quimioterapia
  • Reduzir a sobrevivência de células resistentes ao tratamento
  • Atacar células persistentes que costumam causar recaídas

Esse efeito combinado pode representar um avanço significativo, especialmente para pacientes que não respondem bem às terapias convencionais.

Ainda são necessários estudos clínicos em humanos. No entanto, os dados já indicam um caminho promissor para tornar os tratamentos contra o câncer mais eficazes e direcionados.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn