Quando se fala em derretimento da Antártida, a imagem mais comum é a de grandes blocos de gelo se rompendo na superfície. No entanto, uma ameaça ainda mais silenciosa acontece longe dos olhos: o gelo está derretendo por baixo, onde o oceano transporta calor para regiões extremamente sensíveis das plataformas de gelo.
Um novo estudo publicado na revista Science Advances investigou justamente esse processo na gigantesca Plataforma de Gelo Ross, a maior da Antártida. Os pesquisadores analisaram a chamada zona de ancoragem, local onde o gelo deixa de estar apoiado sobre o continente e começa a flutuar sobre o oceano. Essa faixa é considerada uma das regiões mais críticas para entender o futuro do nível do mar global.
Durante uma expedição realizada em 2019, instrumentos foram instalados sob o gelo da Corrente de Gelo Kamb para monitorar o comportamento do oceano por nove meses. Os principais achados foram:
- Presença de duas camadas distintas de água sob a plataforma;
- Influência intensa das marés no transporte de calor;
- Surgimento de água mais quente em áreas isoladas;
- Mistura entre água oceânica e água de degelo;
- Aumento do potencial de derretimento basal.
Esses dados mostram que o oceano sob o gelo é muito mais dinâmico do que se imaginava.
A costa invisível da Antártida
A chamada zona de ancoragem funciona como a verdadeira linha costeira do continente antártico, embora esteja escondida sob centenas de metros de gelo.
É nesse ponto que as geleiras deixam de repousar sobre a terra e passam a flutuar, formando as plataformas de gelo. Essa transição é extremamente importante porque expõe o sistema glacial diretamente às mudanças do oceano.
Mesmo estando a centenas de quilômetros do mar aberto, essa região não está isolada. O calor consegue avançar por cavidades oceânicas profundas e alcançar a base vulnerável da plataforma. É justamente ali que pequenas alterações podem gerar grandes consequências.
As marés controlam mais do que se pensava

Os pesquisadores descobriram que as marés antárticas exercem um papel decisivo nesse processo. Além de movimentarem a água, elas alteram a energia disponível para o derretimento da parte inferior do gelo. Os ciclos de maré influenciam diretamente a mistura entre as camadas de água fria e as massas ligeiramente mais quentes vindas do oceano profundo.
Outro achado importante foi a presença de ondas internas subaquáticas, formadas entre essas camadas. Essas ondas ajudam a misturar o calor e levam água mais quente para perto da base da plataforma, acelerando o derretimento.
O calor pode viajar mais rápido do que o esperado
Mesmo em regiões extremamente frias, o estudo mostrou que a temperatura e a salinidade da água podem mudar rapidamente em poucos dias.
Isso sugere que o calor vindo do oceano aberto consegue percorrer grandes distâncias, entre 500 e 1000 quilômetros, até alcançar áreas profundas sob o gelo.
Ainda não se sabe exatamente como esse transporte acontece com tanta eficiência, mas essa resposta será essencial para prever o futuro climático. Se mais calor continuar entrando nessas cavidades, o derretimento basal poderá se intensificar de forma significativa.
Pequenas mudanças podem gerar grandes impactos globais
Existe a ideia de que essas regiões geladas do extremo sul seriam protegidas do aquecimento global por sua enorme massa de gelo e baixíssimas temperaturas. Porém, a nova pesquisa mostra que essa proteção pode ser mais frágil do que parecia.
Mudanças no oceano ao redor da Antártida podem abrir caminho para que mais calor alcance a base das plataformas de gelo, enfraquecendo sua estrutura e acelerando a elevação do nível do mar.
Entender esse oceano oculto deixou de ser apenas uma curiosidade científica. Hoje, é fundamental prever como o planeta responderá às mudanças climáticas nas próximas décadas.

