Novo tratamento reduz pressão dos olhos em pessoas com glaucoma, mostra estudo

Acompanhamento médico ajuda a monitorar a evolução do glaucoma. (Imagem: Pixelshot)

O glaucoma pode avançar silenciosamente e comprometer a visão de forma irreversível. Um dos principais desafios no tratamento é manter a pressão dentro dos olhos sob controle, especialmente quando os colírios utilizados não conseguem atingir os resultados esperados. Nesse cenário, uma combinação de dois medicamentos apresentou resultados promissores em pacientes que ainda não tinham a doença adequadamente controlada.

A pesquisa avaliou a associação de netarsudil e latanoprosta, substâncias que atuam por mecanismos diferentes para reduzir a pressão intraocular. Ao longo de seis meses, os pesquisadores observaram uma diminuição significativa dessa pressão, inclusive em pessoas que já utilizavam vários medicamentos contra o glaucoma.

Apesar dos resultados favoráveis, o tratamento também provocou efeitos adversos em parte dos participantes. Por isso, os achados indicam uma alternativa que merece atenção médica, mas não significam que a combinação seja adequada para todos os pacientes.

Dois medicamentos atuam por caminhos diferentes

O netarsudil e a latanoprosta ajudam a controlar a pressão intraocular, mas não funcionam exatamente da mesma maneira.

A latanoprosta pertence à classe dos análogos das prostaglandinas e favorece a saída do humor aquoso, líquido que circula na parte anterior do olho. Quando esse líquido encontra dificuldades para drenar ou sua dinâmica fica desequilibrada, a pressão intraocular pode aumentar.

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Já o netarsudil inibe uma enzima chamada ROCK, envolvida na regulação do sistema de drenagem ocular. Essa ação facilita o escoamento do humor aquoso e contribui para diminuir a pressão dentro do olho.

A associação dos dois princípios ativos busca aproveitar esses mecanismos complementares. Isso pode ser particularmente útil para pessoas que continuam apresentando pressão elevada mesmo com outros colírios.

Vale destacar que reduzir a pressão intraocular é uma das principais estratégias para retardar a progressão do glaucoma, mas o tratamento precisa ser individualizado de acordo com a condição de cada paciente.

Pressão ocular caiu já no primeiro mês de tratamento

Estudo mostra queda da pressão ocular já no 1º mês de tratamento. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

O estudo, publicado em 8 de outubro de 2026 na revista científica Scientific Reports, foi conduzido por Alessandro Siligato e colaboradores. A pesquisa acompanhou 40 pacientes com glaucoma não controlado, com idade média de aproximadamente 75 anos. Como alguns participantes tinham os dois olhos incluídos na análise, foram avaliados 71 olhos.

Antes de iniciar a combinação, a pressão intraocular mediana era de 18 mmHg. Durante o acompanhamento, os pesquisadores registraram os seguintes resultados:

  • Após 1 mês: pressão mediana de 14 mmHg.
  • Após 3 meses: pressão mediana de 13 mmHg.
  • Após 6 meses: pressão mediana de 13,5 mmHg.

A redução foi estatisticamente significativa em todos os períodos avaliados. Os resultados também indicaram diminuição da pressão em participantes com glaucoma primário de ângulo aberto e glaucoma de tensão normal.

Um detalhe importante é que os pacientes já utilizavam, em média, quase três medicamentos para controlar a doença. Portanto, os resultados sugerem que a associação pode ser útil mesmo quando outros tratamentos não proporcionam controle suficiente.

Entretanto, o estudo foi relativamente pequeno e não comparou a combinação com um grupo de controle aleatoriamente selecionado. Assim, são necessárias pesquisas maiores para determinar com mais precisão sua eficácia e segurança em diferentes perfis de pacientes.

Efeitos adversos exigem atenção durante o tratamento

Embora a redução da pressão tenha sido expressiva, a tolerabilidade também merece destaque. Os pesquisadores registraram eventos adversos em 52,1% dos olhos tratados.

A ocorrência mais frequente foi o agravamento da hiperemia conjuntival, caracterizada pela vermelhidão dos olhos, observada em 36,6% dos casos avaliados.

Além disso, houve interrupção do tratamento por efeitos adversos em 15,5% dos olhos. A mesma proporção foi registrada para interrupções relacionadas ao controle inadequado da pressão intraocular.

Esses números mostram que a resposta ao tratamento varia entre os pacientes. Por isso, a escolha dos colírios deve considerar tanto a redução da pressão quanto os efeitos indesejados, a tolerância e a evolução da doença.

Nenhum paciente deve substituir ou combinar colírios por conta própria. A avaliação de um oftalmologista é indispensável para definir a estratégia mais adequada e acompanhar possíveis alterações na visão.

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Uma alternativa para quem precisa de mais controle

A combinação de netarsudil e latanoprosta pode representar uma opção para pacientes com glaucoma cuja pressão permanece elevada apesar do tratamento medicamentoso. Também pode ser considerada em situações nas quais a cirurgia não é indicada ou o paciente não deseja se submeter ao procedimento, conforme avaliação especializada.

Ainda assim, o objetivo não é apenas baixar a pressão ocular, mas preservar a visão pelo maior tempo possível. Como o glaucoma pode causar danos irreversíveis ao nervo óptico, consultas regulares e adesão ao tratamento continuam sendo fundamentais.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn