O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é geralmente associado a dificuldades de concentração, impulsividade e organização. Entretanto, uma pesquisa publicada em outubro de 2026 identificou uma possível conexão entre o transtorno e a saúde cerebral durante o envelhecimento: adultos com diagnóstico de TDAH apresentaram maior risco de desenvolver comprometimento cognitivo leve ou demência.
A descoberta chama a atenção porque sugere que as repercussões do TDAH podem ir além das dificuldades enfrentadas no cotidiano. Ainda assim, é importante interpretar os resultados com cautela: a associação encontrada não significa que todas as pessoas com TDAH desenvolverão demência, nem comprova que o transtorno seja a causa direta dessas doenças.
TDAH e envelhecimento cerebral: os números que chamaram a atenção
A investigação foi publicada em 7 de outubro de 2026, na revista científica JAMA Psychiatry. O primeiro autor é Guilherme Bauer-Negrini, e o trabalho analisou informações de 187.341 adultos com 50 anos ou mais, participantes do programa de pesquisa norte-americano All of Us.
Os pesquisadores combinaram registros eletrônicos de saúde com informações genéticas para investigar se o TDAH estava associado ao aparecimento de alterações cognitivas ao longo do tempo.
Entre os participantes, 3.026 tinham diagnóstico de TDAH. Nesse grupo, 203 pessoas desenvolveram comprometimento cognitivo, o equivalente a aproximadamente 6,7%. Entre os indivíduos sem diagnóstico registrado do transtorno, a proporção foi de cerca de 3,4%.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppAlém dessa diferença, os modelos estatísticos ajustados indicaram uma associação entre o diagnóstico de TDAH e um risco mais de quatro vezes maior de comprometimento cognitivo durante o acompanhamento.
Esse resultado merece atenção, mas há uma distinção fundamental: a estimativa estatística ajustada não significa que cada pessoa com TDAH tenha, individualmente, quatro vezes mais chances de desenvolver demência ao longo da vida. O estudo avaliou a ocorrência de comprometimento cognitivo em uma população específica, considerando diferentes fatores que poderiam influenciar os resultados.
Comprometimento cognitivo leve não é o mesmo que demência
Para compreender a descoberta, é necessário diferenciar duas condições incluídas na análise.
O comprometimento cognitivo leve (CCL) envolve alterações em funções como memória, atenção ou raciocínio que vão além do esperado para a idade. Apesar disso, a pessoa geralmente mantém boa parte da independência nas atividades cotidianas.
Já a demência envolve um declínio cognitivo que interfere significativamente na capacidade de realizar tarefas diárias. A doença de Alzheimer é uma das causas mais conhecidas, embora existam outras condições capazes de provocar demência.
Como o estudo considerou os dois desfechos em conjunto, os resultados não devem ser interpretados como evidência de que o TDAH aumenta exclusivamente o risco de Alzheimer.
Além disso, dificuldades de atenção e memória podem ter diferentes origens. Por isso, sintomas cognitivos em adultos mais velhos precisam ser avaliados por profissionais de saúde, sem presumir que sejam consequência do TDAH ou de uma doença neurodegenerativa.
A genética também entrou na investigação
Outro aspecto importante foi a análise da predisposição genética ao TDAH. Para isso, os pesquisadores utilizaram uma pontuação de risco poligênico, que reúne informações de diversas variantes genéticas associadas à probabilidade de desenvolver o transtorno.
Os participantes com pontuações mais altas apresentaram maior incidência de comprometimento cognitivo em comparação com aqueles que tinham pontuações mais baixas. A diferença relativa estimada foi de 35%.
Esse resultado acrescenta uma dimensão genética à associação observada nos registros clínicos. Entretanto, predisposição genética não equivale a diagnóstico, e a pontuação utilizada na pesquisa não permite prever, de maneira individual, quem desenvolverá demência.
Mesmo após ajustes estatísticos para condições de saúde coexistentes, escolaridade e utilização dos serviços de saúde, a associação entre TDAH e comprometimento cognitivo permaneceu.
Veja também:
Por que o acompanhamento ao longo da vida merece atenção
A pesquisa também encontrou resultados menos favoráveis em indicadores de saúde mental, qualidade de vida e satisfação com as relações sociais entre participantes que apresentavam tanto TDAH quanto comprometimento cognitivo. Esse grupo também utilizou os serviços de saúde com maior frequência.
Esses dados indicam que a combinação das duas condições pode estar associada a necessidades de cuidado mais complexas na velhice.
No entanto, ainda são necessárias novas pesquisas para esclarecer os mecanismos envolvidos. Fatores genéticos, condições psiquiátricas coexistentes, hábitos de vida e diferenças no acesso ao diagnóstico podem contribuir para essa relação.
Na prática, os resultados apoiam a importância de reconhecer o TDAH em adultos e acompanhar a saúde cognitiva durante o envelhecimento, especialmente quando surgem alterações persistentes de memória, raciocínio ou autonomia.
O principal alerta não é que o TDAH inevitavelmente leve à demência, mas que essa possível associação merece investigação e acompanhamento clínico. Estudos futuros poderão esclarecer quais fatores explicam o aumento observado e se determinadas estratégias de cuidado ajudam a reduzir os riscos.
