Uma lesão no joelho pode comprometer atividades simples, como caminhar, subir escadas ou praticar exercícios físicos. Embora quedas, torções e impactos sejam causas conhecidas desses problemas, um fator menos evidente também pode estar associado a esse risco: o consumo de tabaco.
Uma pesquisa com mais de 3,3 milhões de pacientes identificou uma associação entre o uso de tabaco e uma maior frequência de lesões em duas estruturas importantes para a estabilidade do joelho: o menisco e o ligamento cruzado anterior (LCA). Além disso, os resultados apontaram diferenças na necessidade de cirurgia e no tempo de internação após procedimentos.
Os dados chamam a atenção pelo tamanho da amostra, mas é importante interpretar as conclusões com cuidado. O estudo identificou uma associação estatística, o que não significa que fumar seja, isoladamente, a causa direta dessas lesões.
Duas estruturas do joelho que merecem atenção
Para entender os resultados, vale conhecer as estruturas analisadas pelos pesquisadores.
O menisco é uma espécie de almofada de fibrocartilagem localizada entre o fêmur e a tíbia. Cada joelho possui dois meniscos, que ajudam a distribuir a carga, absorver impactos e melhorar a estabilidade durante os movimentos.
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Entrar no Canal do WhatsAppJá o ligamento cruzado anterior, conhecido pela sigla LCA, conecta os ossos do joelho e contribui para impedir deslocamentos excessivos da tíbia em relação ao fêmur. Sua ruptura é relativamente comum em atividades que envolvem mudanças bruscas de direção, saltos e rotações.
Quando essas estruturas sofrem lesões, a pessoa pode apresentar dor, inchaço, dificuldade para movimentar a articulação e sensação de instabilidade. Dependendo da gravidade, o tratamento pode envolver fisioterapia, controle da dor ou intervenção cirúrgica.
Pesquisa com milhões de pacientes revela diferenças no risco
Publicado em 7 de outubro de 2026, na revista científica Scientific Reports, o estudo liderado por Ernesto Joubran analisou registros de saúde de pacientes atendidos entre 2007 e 2017. A amostra final reuniu 3.310.668 pessoas, divididas em grupos comparáveis quanto à idade e às condições de saúde registradas.
Os resultados mostraram diferenças na frequência das lesões entre pessoas com e sem transtorno por uso de tabaco:
- Lesões no menisco: ocorreram em 4,25% dos pacientes do grupo que usava tabaco, contra 3,97% no grupo de comparação.
- Lesões do LCA: foram registradas em 0,48% dos usuários de tabaco, ante 0,42% entre os demais participantes.
Embora as diferenças percentuais pareçam pequenas, elas foram estatisticamente significativas. Na análise dos pesquisadores, a associação foi mais acentuada para as lesões do ligamento cruzado anterior.
Isso não significa que toda pessoa que fuma tenha maior probabilidade de sofrer uma lesão no joelho. Entretanto, os dados indicam que o uso de tabaco pode estar relacionado a fatores que influenciam a saúde musculoesquelética.
Cirurgias e recuperação também entraram na análise
Os pesquisadores observaram outro aspecto importante: a necessidade de tratamento cirúrgico após uma lesão.
Entre os pacientes com ruptura do menisco, aqueles com transtorno por uso de tabaco apresentaram 18% mais chances relativas de passar por reparo cirúrgico, em comparação com o grupo de referência. Já para a reconstrução do LCA, a diferença encontrada não foi estatisticamente significativa.
O estudo também identificou maior tempo de internação hospitalar após cirurgias entre os pacientes que usavam tabaco.
Esses resultados não permitem afirmar que o tabagismo tenha provocado diretamente a necessidade de cirurgia ou prolongado a recuperação. Ainda assim, levantam questões relevantes sobre a relação entre o consumo de tabaco, as lesões ortopédicas e os cuidados após procedimentos cirúrgicos.
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Por que o resultado exige cautela?
Apesar da grande quantidade de participantes, a pesquisa tem limitações. Os autores utilizaram registros de planos de saúde, e não um experimento que pudesse demonstrar uma relação direta de causa e efeito.
Além disso, a identificação dos pacientes foi baseada em registros clínicos e códigos diagnósticos. Dessa forma, os resultados não esclarecem completamente como fatores como intensidade do consumo de tabaco, prática esportiva e características individuais podem ter influenciado as associações observadas.
Ainda assim, o estudo acrescenta evidências à investigação dos possíveis efeitos do tabaco sobre a saúde além dos problemas respiratórios e cardiovasculares.
Manter-se fisicamente ativo, fortalecer a musculatura e evitar o tabaco são medidas importantes para a saúde geral. Quem apresenta dor persistente, inchaço ou instabilidade no joelho deve procurar avaliação profissional para identificar a causa e receber orientação adequada.
O estudo não demonstra que parar de fumar previna especificamente lesões no joelho. No entanto, abandonar o tabaco traz benefícios reconhecidos à saúde e pode contribuir para melhores condições gerais antes e depois de uma cirurgia.
