O envelhecimento dos cães costuma trazer desafios para a saúde, principalmente quando doenças crônicas, como o câncer, entram em cena. Entre as complicações mais preocupantes está a caquexia, uma síndrome caracterizada pela perda progressiva de massa muscular, redução da força física e piora da qualidade de vida. Como essa condição muitas vezes passa despercebida em seus estágios iniciais, identificar sinais precoces é essencial para melhorar o tratamento.
Uma nova pesquisa revelou que pequenas moléculas presentes na corrente sanguínea, conhecidas como microRNAs, podem funcionar como importantes biomarcadores da caquexia em cães idosos. Além de abrir novas possibilidades para a medicina veterinária, a descoberta também pode contribuir para avanços na compreensão da doença em humanos.
Pequenos reguladores com grande impacto na saúde
Os microRNAs são fragmentos muito pequenos de RNA que não produzem proteínas, mas exercem um papel fundamental no controle da expressão gênica. Em outras palavras, eles ajudam a regular quais genes estarão mais ou menos ativos em diferentes situações do organismo.
Alterações na quantidade dessas moléculas já foram associadas a diversas doenças. Por isso, pesquisadores investigam cada vez mais seu potencial como ferramenta para diagnóstico precoce, monitoramento da evolução clínica e desenvolvimento de novas terapias.
Quais microRNAs indicaram maior risco de caquexia?
No estudo, foram analisadas amostras de sangue de 25 cães idosos para avaliar os níveis de diferentes microRNAs circulantes. Os resultados mostraram que quatro moléculas apresentaram concentrações significativamente menores em animais com caquexia associada ao câncer:
- miR 15a
- miR 15b
- miR 16
- miR 140
Entre elas, o miR 16 apresentou o melhor desempenho como marcador individual da síndrome, tornando-se o principal candidato para futuras aplicações clínicas.
Esses achados indicam que exames de sangue capazes de medir esses microRNAs poderão auxiliar veterinários na identificação precoce da perda muscular, antes mesmo que os sinais clínicos se tornem evidentes.
Diferenças importantes observadas em cadelas
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. Nas cadelas com câncer, especialmente aquelas com tumores das glândulas mamárias e do trato reprodutivo, os níveis do miR 140 estavam ainda mais reduzidos.
Como esse microRNA possui propriedades anti inflamatórias, sua diminuição pode estar relacionada tanto ao desenvolvimento do câncer quanto à progressão da caquexia. Os dados sugerem que esses dois processos biológicos podem atuar simultaneamente para reduzir sua expressão. Essa descoberta amplia a compreensão sobre como fatores hormonais e inflamatórios podem influenciar o avanço da doença.
Uma descoberta que pode beneficiar animais e pessoas
Os cães compartilham diversas características biológicas e ambientais com os seres humanos, tornando-se modelos importantes para pesquisas em oncologia comparativa.
Se estudos futuros confirmarem esses resultados em grupos maiores de animais, os microRNAs circulantes poderão integrar exames capazes de:
- Detectar precocemente a caquexia;
- Monitorar a evolução do tratamento;
- Auxiliar no desenvolvimento de novas terapias;
- Contribuir para pesquisas sobre perda muscular em humanos.
Os resultados foram publicados por Kyu-Shik Jeong na revista científica Molecular Oncology, em 2026, mostrando que os microRNAs miR 16 e miR 140 surgem como promissores biomarcadores para o diagnóstico da caquexia associada ao câncer em cães idosos. A descoberta representa um passo importante para uma medicina veterinária mais precisa e pode gerar benefícios que ultrapassam o cuidado com os animais, alcançando também futuras aplicações na saúde humana.
