Há cerca de 160 milhões de anos, pequenos mamíferos circulavam por um mundo dominado pelos dinossauros. Eles eram discretos, provavelmente noturnos e tinham características que lembram alguns pequenos mamíferos atuais. Durante muito tempo, os cientistas imaginaram que esses animais também levavam uma existência predominantemente solitária.
Uma nova análise, porém, muda essa imagem. Evidências obtidas a partir de milhares de estudos sobre mamíferos atuais indicam que os primeiros mamíferos placentários já poderiam formar pares estáveis, muito antes de a vida em grandes grupos se tornar comum.
Uma pista escondida no comportamento dos mamíferos atuais
O comportamento social raramente deixa marcas no registro fóssil. Um esqueleto pode revelar tamanho, anatomia e até pistas sobre alimentação, mas dificilmente mostra se um animal vivia sozinho ou acompanhado.
Por isso, os pesquisadores recorreram a uma estratégia diferente: compararam a organização social de centenas de espécies atuais e combinaram essas informações com suas relações evolutivas.
O resultado foi particularmente interessante entre os pequenos mamíferos semelhantes aos musaranhos. Embora muitas espécies tenham sido tradicionalmente classificadas como solitárias, uma análise mais detalhada mostrou que essa descrição não se aplica a todos os casos.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppEntre as espécies avaliadas, 38% apresentavam vida em pares, enquanto outras também podiam formar grupos em determinadas circunstâncias.
Essa descoberta abriu uma possibilidade importante: se os parentes atuais dos primeiros mamíferos apresentam diferentes formas de organização social, talvez seus ancestrais também fossem mais flexíveis do que se imaginava.
O passado social começa a ganhar uma nova forma
O banco de dados utilizado na pesquisa reuniu informações de 806 espécies de mamíferos, incluindo marsupiais e mamíferos placentários. Entre os placentários analisados, aproximadamente um quarto apresentava organização em pares.
Com métodos estatísticos capazes de considerar a história evolutiva das espécies, os pesquisadores estimaram como poderiam ter vivido os ancestrais desses animais.
A reconstrução aponta que a vida em pares já fazia parte da história dos primeiros mamíferos placentários, que surgiram enquanto os dinossauros ainda dominavam muitos ambientes terrestres.
Isso não significa que todos esses animais formassem casais ou que permanecessem juntos durante toda a vida. A principal conclusão é que a organização social era provavelmente variável, assim como acontece em diversas espécies atuais.
Uma transformação que atravessou milhões de anos
A história fica ainda mais interessante quando a evolução avança. Evidências de diferentes linhagens indicam que ancestrais de grupos como primatas, ungulados artiodáctilos e musaranhos-elefante também apresentavam vida em pares em períodos posteriores.
Mais tarde, aproximadamente 66 milhões de anos atrás, o impacto de um asteroide desencadeou uma enorme crise ecológica, levando à extinção dos dinossauros não avianos e de muitas outras espécies.
Os pequenos mamíferos que sobreviveram encontraram ambientes profundamente transformados. Ao longo de milhões de anos, algumas linhagens aumentaram de tamanho e passaram a apresentar formas mais complexas de organização social.
Nesse processo, a vida em grupo ganhou importância, possivelmente oferecendo vantagens como maior proteção contra predadores.
Leia mais:
A pesquisa que reconstruiu a vida social ancestral
O estudo foi liderado por Sam F. Walmsley e publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em 2026. O trabalho, intitulado Pair-living arose early in placental mammals, analisou a evolução da organização social dos mamíferos.
A pesquisa apresenta uma mudança importante na forma de interpretar a evolução social desses animais. Em vez de considerar a vida em pares como uma característica que surgiu apenas posteriormente, os resultados indicam que ela pode ter raízes muito antigas na história dos mamíferos placentários.
A grande questão deixada pelos pesquisadores é justamente o passo seguinte: como alguns mamíferos passaram de pares para grupos formados por vários indivíduos?
Essa transição pode ajudar a explicar uma das características mais marcantes dos mamíferos modernos: a capacidade de desenvolver relações sociais complexas, cooperar e viver próximos uns dos outros.
