Mistério solar é resolvido após erupção gigantesca fracassar inesperadamente

Cientistas descobriram por que algumas explosões solares colapsam antes de escapar do Sol. (Imagem: Tingyu Gou)
Cientistas descobriram por que algumas explosões solares colapsam antes de escapar do Sol. (Imagem: Tingyu Gou)

O Sol produz explosões gigantescas capazes de lançar bilhões de toneladas de plasma ao espaço. Essas erupções, chamadas de ejeções de massa coronal (EMC), podem interferir em satélites, comunicações e até redes elétricas na Terra. No entanto, nem toda erupção consegue escapar da estrela. Algumas simplesmente perdem força e colapsam antes de se expandirem pelo espaço.

Agora, um estudo publicado na revista Nature Astronomy revelou detalhes inéditos sobre esse fenômeno conhecido como erupção solar fracassada.

A descoberta aconteceu após cientistas observarem uma intensa atividade solar registrada em março de 2024. Uma enorme estrutura de gás quente começou a subir da superfície do Sol, indicando uma possível explosão poderosa. Porém, de forma inesperada, o material desacelerou, parou e retornou à estrela.

Para entender o que aconteceu, pesquisadores combinaram dados de diversas missões espaciais e telescópios terrestres. Entre os principais pontos observados estão:

  • Reconexões magnéticas ocorrendo simultaneamente;
  • Campos magnéticos extremamente fortes ao redor da erupção;
  • Colapso da estrutura antes da ejeção completa;
  • Observações feitas em múltiplos comprimentos de onda.

O “campo magnético prisão” que bloqueou a explosão

As análises mostraram que a chave do fenômeno estava no comportamento dos campos magnéticos solares. Durante uma erupção normal, linhas magnéticas se reorganizam e liberam energia suficiente para impulsionar plasma ao espaço. Neste caso, porém, ocorreu um processo mais complexo.

Enquanto parte das reconexões magnéticas ajudava a empurrar a erupção para cima, outra região do campo magnético começou a enfraquecer a própria estrutura em ascensão. Ao mesmo tempo, campos externos muito intensos funcionaram como uma espécie de “gaiola magnética”, impedindo que a ejeção escapasse completamente. Como resultado, a explosão perdeu estabilidade e entrou em colapso.

Os cientistas conseguiram observar esse comportamento graças a dados coletados por missões como Solar Orbiter, Hinode, IRIS e o Observatório de Dinâmica Solar da NASA.

O fenômeno pode acontecer em outras estrelas

Além de explicar eventos solares, o estudo também pode ajudar astrônomos a compreender atividades em estrelas distantes. Pesquisadores já observaram muitas erupções intensas em outras estrelas semelhantes ao Sol, mas poucas evidências claras de ejeções de massa coronal completas. A nova hipótese sugere que diversas explosões estelares podem fracassar antes de escapar, tornando-se difíceis de detectar pelos telescópios.

Isso é importante porque EMCs influenciam diretamente o chamado clima espacial, afetando planetas ao redor dessas estrelas. A pesquisa liderada por Tingyu Gou mostra que o comportamento do Sol continua mais complexo do que imaginávamos. Cada nova observação ajuda cientistas a entender melhor como campos magnéticos moldam explosões solares e influenciam ambientes planetários em toda a galáxia.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes