Irritabilidade, insônia e birra: o efeito colateral pouco falado dos corticoides infantis

Corticoides podem provocar mudanças de humor e comportamento em crianças. (Imagem: Odua Images)

Usados para tratar alergias, crises respiratórias e inflamações, os corticoides podem alterar o sono e o comportamento das crianças.

Uma criança que costuma ser tranquila começa a chorar por qualquer motivo, fica irritada, demora a dormir e parece ter energia de sobra justamente na hora de ir para a cama. Mudanças assim podem preocupar os pais, especialmente quando aparecem durante o tratamento de uma doença. Em determinadas situações, porém, o medicamento utilizado para combater a inflamação pode contribuir para essas alterações de comportamento.

Os corticoides infantis são medicamentos importantes no tratamento de diferentes condições, incluindo crises de asma, alergias e inflamações. Apesar dos benefícios, alguns deles podem provocar efeitos adversos que vão além dos sintomas físicos, atingindo o sono, o humor e o comportamento.

Isso não significa que toda criança que toma corticoide ficará agitada ou terá insônia. A reação varia conforme o medicamento, a dose, a duração do tratamento e as características individuais. Reconhecer esses possíveis efeitos ajuda as famílias a agir com mais segurança, sem interromper uma terapia necessária por conta própria.

Por que o corticoide pode mudar o comportamento da criança?

Infográfico: como corticoides podem alterar o comportamento infantil. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Medicamentos como prednisolona, prednisona e dexametasona pertencem à classe dos corticosteroides. Eles imitam a ação de hormônios produzidos pelas glândulas suprarrenais e ajudam a controlar processos inflamatórios e respostas exageradas do sistema imunológico.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Entretanto, os glicocorticoides também interagem com sistemas envolvidos na regulação do estresse, do humor e do ciclo de sono e vigília. Por isso, seus efeitos podem alcançar o sistema nervoso central.

Em algumas crianças, isso pode se manifestar como:

  • Irritabilidade e mudanças de humor, com reações emocionais mais intensas que o habitual.
  • Agitação e inquietação, dificultando momentos que exigem calma.
  • Insônia, com demora para adormecer ou despertares durante a noite.
  • Alterações comportamentais, como choro frequente, impaciência e maior dificuldade para lidar com frustrações.

Esses sinais podem ser confundidos com birras comuns da infância. A diferença importante é observar se surgiram ou se intensificaram após o início do medicamento, considerando também a própria doença, a dor, a febre e as mudanças na rotina.

Estudo investigou os efeitos dos corticoides no cérebro

Uma revisão científica publicada em 14 de maio de 2026, na revista Psychopharmacology, analisou os mecanismos e as manifestações neuropsiquiátricas associadas aos corticosteroides. O trabalho tem como autores principais Adil Husain e Firoz Ahmad.

A publicação descreve efeitos que podem incluir alterações de humor, ansiedade, dificuldades cognitivas e mudanças comportamentais. Os autores também discutem como fatores como dose, duração do tratamento e vulnerabilidade individual podem influenciar o aparecimento dessas reações.

A revisão, entretanto, aborda os efeitos neuropsiquiátricos dos corticosteroides de maneira geral, não sendo um estudo exclusivo sobre crianças. Portanto, ela ajuda a compreender os mecanismos envolvidos, mas não permite estimar diretamente a frequência de irritabilidade ou insônia na população infantil.

A principal mensagem clínica é que mudanças de comportamento durante o uso de corticoides merecem atenção, sem que isso signifique necessariamente uma reação grave ou que o medicamento precise ser suspenso.

Quando a insônia e as birras merecem atenção?

O momento em que os sintomas aparecem é uma pista importante. Se a criança começa a dormir mal, fica muito mais irritada ou apresenta uma mudança incomum de comportamento depois de iniciar o tratamento, os responsáveis devem comunicar o ocorrido ao pediatra.

Também é importante observar a intensidade e a duração das alterações. Agitação extrema, confusão, alucinações ou mudanças acentuadas de comportamento exigem avaliação médica imediata.

Além disso, a própria doença pode interferir no sono e no humor. Por isso, não é possível atribuir toda mudança comportamental ao medicamento sem considerar o quadro clínico completo.

Veja também:

Como proteger o sono e o bem-estar durante o tratamento

Algumas medidas simples podem ajudar a família a lidar com o período de tratamento:

  • Observe os horários dos sintomas: anote quando a criança toma o medicamento e quando começam as alterações.
  • Mantenha uma rotina tranquila: reduza estímulos antes de dormir e preserve horários regulares de sono.
  • Converse com o pediatra: relate a intensidade da irritabilidade, as noites mal dormidas e qualquer mudança importante.
  • Não altere a dose por conta própria: reduzir, antecipar ou suspender o corticoide sem orientação pode prejudicar o tratamento.

Dependendo do medicamento e da situação clínica, o profissional poderá avaliar se é necessário ajustar o horário de administração, a dose ou a estratégia terapêutica. Essas decisões devem considerar a doença que está sendo tratada e as características da criança.

Os corticoides continuam sendo ferramentas valiosas na pediatria, e seus benefícios podem superar os riscos quando utilizados corretamente. O importante é reconhecer que a saúde infantil também envolve sono, comportamento e bem-estar emocional.

No Fala Ciência, você encontra outros conteúdos sobre medicamentos, saúde infantil e efeitos adversos que ajudam a compreender melhor os tratamentos do dia a dia.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn