Internações ligadas às canetas emagrecedoras acendem alerta sobre segurança

Uso crescente exige atenção e acompanhamento médico. (Foto: Pixelshot via Canva)
Uso crescente exige atenção e acompanhamento médico. (Foto: Pixelshot via Canva)

O uso de canetas emagrecedoras cresceu rapidamente no Brasil nos últimos anos, impulsionado pela eficácia desses medicamentos no controle do peso e do diabetes tipo 2. No entanto, junto com a popularização, aumentaram também os relatos de efeitos colaterais e internações hospitalares, levantando dúvidas sobre a segurança de fármacos como Ozempic e Mounjaro.

Casos recentes de hospitalização associados ao uso desses medicamentos trouxeram o tema para o centro do debate público. Mas, afinal, o que mostram os números oficiais e qual é o real risco envolvido?

O que dizem os dados de farmacovigilância no Brasil

No Brasil, suspeitas de eventos adversos relacionados a medicamentos são registradas no sistema de farmacovigilância da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, conhecido como VigiMed. A base reúne notificações feitas por profissionais de saúde, pacientes e fabricantes, sem estabelecer automaticamente uma relação de causa e efeito.

Entre dezembro de 2018 e dezembro de 2025, foram registradas 2.436 notificações envolvendo medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, grupo que inclui semaglutida, tirzepatida, liraglutida e dulaglutida. Embora o número chame atenção, ele deve ser interpretado à luz do aumento expressivo do consumo desses fármacos no período.

A maioria das notificações envolveu mulheres, representando cerca de 72% dos relatos. Além disso, os registros cresceram ano a ano, acompanhando a expansão do uso. Em 2021, por exemplo, foram pouco mais de 300 notificações, enquanto em 2025 o número já ultrapassava mil.

Internações, risco à vida e óbitos: como interpretar

Dentro desse conjunto de notificações, foram registrados 2.442 eventos classificados como hospitalização ou prolongamento de internação. Esse número é maior que o total de notificações porque um único paciente pode relatar mais de um evento associado ao mesmo episódio.

Também constam nos registros 232 casos considerados ameaça à vida e 130 óbitos com suspeita de associação ao uso desses medicamentos. É fundamental destacar que esses dados não confirmam causalidade direta, apenas indicam que o evento ocorreu após o uso do fármaco.

Outro ponto importante é que o sistema não permite identificar com precisão se o medicamento utilizado era regular, manipulado ou de origem irregular, o que limita a análise.

O papel dos produtos irregulares no aumento do risco

Nos últimos meses, cresceram os relatos envolvendo versões não regulamentadas das canetas emagrecedoras, muitas vezes adquiridas fora do país ou pela internet. Esses produtos não passam por controle de qualidade, podem conter doses inadequadas ou sequer ter o princípio ativo anunciado.

Esse cenário aumenta o risco de efeitos adversos e pode distorcer os dados de segurança associados aos medicamentos aprovados.

Quando o uso é indicado e quais cuidados são essenciais

Os análogos de GLP-1 são indicados para:

  • Diabetes tipo 2
  • Obesidade
  • Sobrepeso associado a comorbidades

O uso fora dessas indicações, especialmente sem acompanhamento médico, eleva o risco de complicações. Mesmo dentro das indicações corretas, efeitos colaterais podem ocorrer, como náuseas, vômitos e, em casos raros, pancreatite.

Por isso, especialistas reforçam que o benefício ainda supera os riscos, desde que o tratamento seja feito com prescrição, acompanhamento regular e medicamentos devidamente registrados.

Equilíbrio entre benefício e segurança

Os dados disponíveis mostram que eventos graves existem, mas continuam sendo pouco frequentes diante do grande número de usuários. O principal fator de proteção é o uso responsável, com orientação médica e evitando produtos de origem duvidosa.

Em saúde, não há atalhos. Quando se trata de medicamentos potentes, segurança e acompanhamento são parte do tratamento.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn