Fungo resistente surpreende NASA e levanta alerta sobre contaminação em Marte

Fungo resistente encontrado na NASA pode sobreviver às condições extremas de Marte (Imagem: Pixabay via Canva)
Fungo resistente encontrado na NASA pode sobreviver às condições extremas de Marte (Imagem: Pixabay via Canva)

A exploração de Marte pode enfrentar um desafio invisível, porém preocupante: a sobrevivência de microrganismos terrestres no planeta vermelho. Um novo estudo revelou que um fungo encontrado em instalações da NASA apresentou resistência surpreendente a condições semelhantes às do ambiente marciano.

A pesquisa identificou o fungo Aspergillus calidoustus, capaz de suportar fatores extremos como radiação ultravioleta intensa, baixa pressão atmosférica e temperaturas severamente baixas. O trabalho foi liderado pelo microbiologista Kasthuri Venkateswaran, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, e publicado na revista científica Applied and Environmental Microbiology.

A descoberta reforça uma preocupação antiga da exploração espacial: a chamada proteção planetária, que busca evitar a contaminação de outros mundos por organismos da Terra. Entre os principais fatores analisados no estudo estão:

  • Radiação ultravioleta intensa;
  • Radiação ionizante e cósmica;
  • Pressão atmosférica extremamente baixa;
  • Frio extremo semelhante ao de Marte;
  • Poeira e condições ambientais do planeta vermelho.

Esses testes ajudam a entender se formas de vida microscópicas poderiam sobreviver durante viagens espaciais e até mesmo se estabelecer em outro planeta.

Quando a limpeza extrema não é suficiente

O estudo começou em salas limpas da NASA usadas durante o programa Mars 2020, responsável por preparar missões de exploração marciana. Esses ambientes passam por rígidos processos de descontaminação justamente para evitar que microrganismos embarquem acidentalmente em espaçonaves.

Descoberta levanta alerta sobre contaminação biológica em futuras missões marcianas (Imagem: Pixabay via Canva)
Descoberta levanta alerta sobre contaminação biológica em futuras missões marcianas (Imagem: Pixabay via Canva)

Mesmo assim, os pesquisadores encontraram 27 cepas fúngicas após a coleta de amostras. Isso mostra como certos organismos possuem uma impressionante capacidade de persistência, mesmo em locais altamente controlados.

A principal surpresa veio quando essas amostras foram submetidas a simulações das condições marcianas.

O fungo que resistiu onde quase nada sobrevive

Entre todas as amostras testadas, apenas o Aspergillus calidoustus conseguiu suportar a combinação de radiação UV, atmosfera rarefeita e exposição à radiação ionizante.

O fungo só deixou de sobreviver após longos períodos de exposição simultânea ao frio extremo e à intensa radiação marciana. Isso indica que, embora a sobrevivência prolongada ainda seja difícil, o risco de transporte involuntário não pode ser ignorado.

Além disso, espécies do gênero Aspergillus já são conhecidas por sua relação com doenças respiratórias, o que também amplia a importância desse monitoramento.

O desafio da proteção planetária

Desde 1967, o Tratado do Espaço Exterior, estabelecido pela ONU, determina que missões espaciais devem evitar a contaminação de outros corpos celestes. Por isso, existe um limite rigoroso para a presença de esporos microbianos em espaçonaves enviadas a Marte.

Essa nova descoberta não significa que Marte esteja em risco imediato, mas mostra que fungos precisam receber mais atenção nos protocolos espaciais.

À medida que a humanidade se aproxima de missões tripuladas ao planeta vermelho, entender esses riscos será essencial para proteger tanto Marte quanto futuras expedições humanas.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes