FOP: a doença rara que faz o corpo criar ossos onde não deveria 

FOP causa formação de osso em músculos. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A Fibrodisplasia Ossificante Progressiva (FOP) é uma das doenças genéticas mais raras e incapacitantes conhecidas pela medicina. Ela faz com que o organismo forme osso em locais onde normalmente existiriam músculos, ligamentos e tendões, criando uma espécie de “segundo esqueleto” ao longo da vida.

Esse processo não acontece de forma contínua, mas sim em episódios chamados de flare-ups inflamatórios, que podem surgir após traumas leves, injeções ou até pequenos impactos mecânicos.

Corpo ativa programa biológico errado

A origem da FOP está, na maioria dos casos, em uma mutação no gene ACVR1, responsável por regular sinais ligados à formação óssea.

Esse gene participa da via das proteínas morfogenéticas ósseas (BMPs), que são fundamentais no desenvolvimento normal do esqueleto. Porém, na FOP, essa via fica desregulada, fazendo com que o corpo interprete inflamações como um sinal para formar osso em tecidos moles.

Com o tempo, isso leva a:

  • Perda progressiva de mobilidade
  • Rigidez articular severa
  • Pontes ósseas entre músculos
  • Imobilização parcial ou total

Por que traumas simples são tão perigosos?

Na FOP, o organismo responde de forma exagerada a qualquer lesão. Um simples impacto pode desencadear um processo inflamatório intenso, que ativa células musculares e conjuntivas a se transformarem em células formadoras de osso.

Esse fenômeno é chamado de ossificação heterotópica e é o principal responsável pela progressão da doença.

Por isso, até procedimentos médicos invasivos precisam ser cuidadosamente evitados sempre que possível.

Novas evidências científicas sobre o assunto 

Um estudo clínico publicado na revista Nature Medicine, em 2023, liderado por Maja Di Rocco, avaliou o uso do anticorpo monoclonal garetosmabe, desenvolvido para bloquear sinais inflamatórios associados à formação óssea anormal na FOP.

O estudo mostrou que o medicamento conseguiu reduzir parcialmente novos episódios de ossificação heterotópica em alguns pacientes, embora os resultados ainda sejam variáveis e não representem cura. O trabalho também destacou que a resposta ao tratamento depende do estágio da doença e da intensidade dos surtos inflamatórios.

Uma doença rara e extremamente limitante

A FOP afeta aproximadamente 1 em cada 1,5 a 2 milhões de pessoas. A maioria dos pacientes apresenta sinais ainda na infância, como deformações nos dedos dos pés e episódios recorrentes de inchaço doloroso nos tecidos.

Atualmente, não existe cura definitiva. O manejo clínico envolve:

  • Controle de inflamações durante surtos
  • Evitar traumas e procedimentos desnecessários
  • Monitoramento contínuo da progressão óssea
  • Terapias experimentais em estudo

Um campo ainda em expansão na medicina

Apesar da gravidade, a FOP também é uma das doenças mais importantes para a pesquisa biomédica, porque ajuda a entender como o corpo regula a formação óssea e a reparação tecidual.

Cada avanço científico nessa área não apenas aproxima possíveis tratamentos, mas também amplia o conhecimento sobre os mecanismos fundamentais do esqueleto humano.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn