Filhote de dinossauro preservado em rocha revela pistas inéditas sobre sua alimentação

Anatomia esquelética do Doolysaurus huhmini com estruturas detalhadas e abreviações técnicas ilustradas (Imagem: Jung J, Kim M, Jo H, Clarke JA (2026),Fossil Record 29(1): 87-113./ CC BY-SA 4.0)
Anatomia esquelética do Doolysaurus huhmini com estruturas detalhadas e abreviações técnicas ilustradas (Imagem: Jung J, Kim M, Jo H, Clarke JA (2026),Fossil Record 29(1): 87-113./ CC BY-SA 4.0)

Uma descoberta recente está encantando cientistas e curiosos: um filhote de dinossauro fossilizado foi encontrado oculto dentro de uma rocha na Coreia do Sul e o mais impressionante é o nível de detalhe preservado. O pequeno animal, batizado de Doolysaurus huhmini, oferece pistas valiosas sobre a vida no período Cretáceo e reforça o potencial de novas tecnologias na paleontologia.

Inicialmente, o fóssil parecia conter apenas fragmentos isolados. No entanto, exames mais avançados revelaram um conjunto muito mais completo do que se imaginava, incluindo partes do crânio e outros ossos delicados. Esse avanço só foi possível graças ao uso de técnicas modernas de imagem. Entre os principais pontos da descoberta, destacam-se:

  • Identificação de uma nova espécie de dinossauro após 15 anos no país;
  • Uso de tomografia computadorizada (micro-CT) para análise não invasiva;
  • Presença de gastrólitos, indicando hábitos alimentares variados;
  • Indícios de que o animal possuía revestimento corporal felpudo.

Tecnologia que “enxerga” dentro da rocha

Diferente dos métodos tradicionais, que exigem a remoção física da rocha, a microtomografia computadorizada permitiu visualizar o interior do fóssil com precisão e rapidez. Em poucos meses, os pesquisadores conseguiram mapear estruturas que poderiam levar anos para serem expostas manualmente.

Além disso, essa abordagem reduz o risco de danificar ossos frágeis, especialmente em espécimes jovens. Com isso, a tecnologia se consolida como uma ferramenta essencial para investigar fósseis complexos e ampliar o conhecimento sobre espécies extintas.

Um pequeno dinossauro com características únicas

Bloco fóssil com holótipo do Doolysaurus revela ossos identificados por tomografia computadorizada (Imagem: Jung J, Kim M, Jo H, Clarke JA (2026),Fossil Record 29(1): 87-113./ CC BY-SA 4.0)
Bloco fóssil com holótipo do Doolysaurus revela ossos identificados por tomografia computadorizada (Imagem: Jung J, Kim M, Jo H, Clarke JA (2026), Fossil Record 29(1): 87-113./ CC BY-SA 4.0)

O Doolysaurus huhmini viveu há cerca de 100 milhões de anos, durante o Cretáceo Médio. Embora ainda jovem, com aproximadamente dois anos de idade, já apresentava características importantes para sua classificação. Pertencente ao grupo dos tescelossaurídeos, esse dinossauro provavelmente se locomovia sobre duas pernas e habitava regiões do atual leste asiático.

Seu tamanho era comparável ao de uma ave de médio porte, mas adultos poderiam atingir dimensões maiores. Outro aspecto que chama atenção é a possível presença de estruturas semelhantes a pelos, sugerindo uma aparência mais suave e menos “reptiliana” do que muitos imaginam.

Dieta e comportamento revelados por pedras no estômago

Um dos achados mais relevantes foi a presença de gastrólitos, pequenas pedras ingeridas para auxiliar na digestão. Esse detalhe indica uma dieta onívora, combinando vegetais, insetos e pequenos animais.

Além disso, a organização dessas pedras dentro do fóssil sugere que o corpo foi rapidamente soterrado, preservando grande parte da anatomia original. Esse tipo de conservação é raro e extremamente valioso para a ciência.

Fósseis escondidos indicam que novas espécies podem surgir nos próximos anos

Publicado na revista Fossil Record por Jongyun Jung e colaboradores, o estudo reforça a importância da Coreia do Sul como área promissora para descobertas paleontológicas. Embora o país já seja conhecido por pegadas e ovos fossilizados, achados de ossos completos ainda são incomuns.Dessa forma, a descoberta do Doolysaurus não apenas amplia o conhecimento sobre dinossauros asiáticos, mas também sugere que muitos outros fósseis podem estar ocultos em rochas ainda não exploradas. Com o avanço das tecnologias de imagem, a tendência é que novas espécies venham à tona nos próximos anos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes