Estudo revela fator emocional que encurta a vida de sobreviventes de câncer

Solidão aumenta risco de morte após câncer. (Foto: Getty Images via Canva)
Solidão aumenta risco de morte após câncer. (Foto: Getty Images via Canva)

A jornada de quem supera o câncer não termina com o fim do tratamento. Na verdade, um novo conjunto de evidências científicas indica que fatores emocionais podem desempenhar um papel decisivo na sobrevivência a longo prazo. Entre eles, a solidão surge como um elemento de risco importante e frequentemente subestimado.

Um estudo robusto publicado na Journal of the National Comprehensive Cancer Network (Jingxuan Zhao, 2024) analisou como o sentimento de isolamento influencia a mortalidade entre sobreviventes de câncer nos Estados Unidos. Os resultados mostram que o estado emocional pode estar diretamente ligado à evolução clínica desses pacientes.

Como a pesquisa investigou a solidão em larga escala

A investigação utilizou dados do Health and Retirement Study (2008 a 2018), uma das maiores bases populacionais sobre saúde de adultos com 50 anos ou mais. O acompanhamento dos participantes foi estendido até 2020, permitindo uma análise de longo prazo.

Ao todo, foram avaliados 3.447 sobreviventes de câncer, distribuídos em diferentes níveis de solidão:

  • Baixa ou nenhuma solidão
  • Solidão leve
  • Solidão moderada
  • Solidão grave

A mensuração foi baseada na Escala de Solidão da UCLA (versão reduzida), que avalia percepções de isolamento, falta de companhia e desconexão social.

Momento em que o isolamento começa a afetar a saúde

Isolamento emocional piora prognóstico do câncer. (Foto: Rido via Canva)
Isolamento emocional piora prognóstico do câncer. (Foto: Rido via Canva)

Os dados revelaram um padrão claro e preocupante: quanto maior o nível de solidão, maior o risco de mortalidade.

De forma mais específica, os sobreviventes classificados com solidão grave apresentaram um risco significativamente mais alto em comparação aos que relataram baixa ou nenhuma solidão.

O estudo identificou uma relação dose-resposta, ou seja, o risco aumentava progressivamente conforme a solidão se intensificava.

Principais achados incluem:

  • 27,6% dos participantes relataram solidão grave
  • Aumento consistente do risco de morte entre grupos mais solitários
  • Associação mantida mesmo após ajustes por fatores sociais e demográficos
  • Razão de risco ajustada de até 1,67 no grupo mais afetado

Por que a mente influencia o corpo após o câncer?

Embora o estudo não detalhe mecanismos biológicos específicos, a ciência sugere que o isolamento emocional pode afetar o organismo de várias formas.

Entre os possíveis caminhos estão:

  • Elevação do estresse persistente, com efeito direto sobre a imunidade do organismo
  • Inflamação persistente, associada a pior recuperação
  • Menor adesão a tratamentos e acompanhamento médico
  • Redução de comportamentos saudáveis no dia a dia

Além disso, o distanciamento social pode enfraquecer redes de apoio essenciais para a reabilitação física e emocional.

Uma nova frente no cuidado oncológico

Com base nos resultados, os pesquisadores destacam a necessidade de incluir o rastreamento da solidão como parte do acompanhamento de sobreviventes de câncer.

Isso se torna ainda mais relevante em contextos recentes de isolamento social, nos quais muitos pacientes podem ter sido ainda mais afetados emocionalmente.

Assim, estratégias como suporte psicológico, grupos de convivência e acompanhamento multidisciplinar ganham importância no cuidado contínuo.

Portanto, a presença ou ausência de conexões sociais pode influenciar diretamente o desfecho de saúde, tornando a solidão um fator clínico relevante e não apenas emocional.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn