Tratamento da menopausa mudou bactérias da região íntima em 356 mulheres

Alterações hormonais também afetam as bactérias vaginais. (Imagem: Sasirin pamai's Images)

A menopausa provoca transformações que vão muito além das ondas de calor, da irregularidade menstrual e das alterações no sono. A redução dos níveis de estrogênio também modifica o ambiente vaginal e urinário, influenciando as comunidades de microrganismos que vivem nessas regiões. Nesse cenário, uma pesquisa recente identificou que a terapia hormonal da menopausa pode alterar a composição dessas bactérias, mas os resultados não são iguais para todas as mulheres.

O estudo acompanhou 356 mulheres na perimenopausa durante seis meses e encontrou mudanças importantes na microbiota vaginal e urinária após o tratamento com estradiol e didrogesterona. Além disso, os pesquisadores observaram que a composição bacteriana existente antes do início da terapia estava relacionada à resposta clínica apresentada pelas participantes.

Os resultados ajudam a compreender melhor a relação entre hormônios femininos, microbioma e saúde íntima, abrindo caminho para estratégias de tratamento mais individualizadas.

Queda do estrogênio também transforma o ambiente vaginal

O estrogênio desempenha um papel importante na manutenção da saúde do sistema reprodutor feminino. Durante a transição para a menopausa, a diminuição desse hormônio provoca alterações na mucosa vaginal, na lubrificação e nas condições que favorecem determinadas comunidades bacterianas.

Entre os microrganismos associados à saúde vaginal estão as bactérias do gênero Lactobacillus. Elas participam da manutenção de um ambiente com pH mais ácido, dificultando a proliferação de alguns microrganismos potencialmente prejudiciais.

Por outro lado, alterações nessa comunidade podem favorecer o aumento de bactérias como a Gardnerella vaginalis, frequentemente associada à vaginose bacteriana.

É nesse contexto que a terapia hormonal da menopausa (THM) chama a atenção. Ao repor hormônios que diminuem naturalmente nessa fase, o tratamento pode produzir efeitos que não se limitam ao alívio dos sintomas climatéricos.

Pesquisa identificou mudanças em bactérias após seis meses de tratamento

Terapia hormonal altera o microbioma na perimenopausa. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Publicado em 3 de novembro de 2026, na revista científica Nature Medicine, o estudo teve como primeira autora Chen Chen e investigou as respostas do microbioma à terapia hormonal em mulheres na perimenopausa.

As 356 participantes receberam uma combinação oral de estradiol e didrogesterona durante seis meses. Ao longo desse período, os pesquisadores avaliaram diferentes comunidades microbianas do organismo, incluindo aquelas presentes nas regiões vaginocervical, urinária, oral e intestinal.

Os resultados mostraram que as mudanças mais expressivas ocorreram nas regiões vaginal e urinária. Já a microbiota oral apresentou alterações moderadas, enquanto a intestinal sofreu modificações menores.

Um dos achados mais interessantes foi o aumento da presença de Lactobacillus crispatus na região vaginocervical, acompanhado da redução de Gardnerella vaginalis.

O primeiro microrganismo está associado a condições favoráveis à saúde vaginal. Portanto, essa mudança indica que a reposição hormonal pode contribuir para modificar o equilíbrio microbiano da região íntima.

A pesquisa também identificou melhorias em indicadores neuroendócrinos, metabólicos e relacionados aos sintomas da menopausa.

Bactérias intestinais podem influenciar a resposta hormonal

Outro resultado importante foi a identificação de diferenças na resposta ao tratamento conforme a composição inicial da microbiota intestinal.

Mulheres com predominância da bactéria Phocaeicola vulgatus apresentaram maior resposta à terapia hormonal, com melhores resultados clínicos e maior probabilidade de alcançar uma remissão mais rápida dos sintomas.

Em contrapartida, participantes com predominância de Prevotella copri apresentaram uma resposta menos favorável em comparação com o primeiro grupo.

A microbiota vaginal também influenciou os resultados. Mulheres que apresentavam maior quantidade de Lactobacillus crispatus antes do tratamento tiveram maior tendência a apresentar colonização por essa bactéria nas regiões vaginal e urinária após a intervenção.

Além disso, esse perfil inicial esteve relacionado a uma melhora mais expressiva no Índice de Função Sexual Feminina, instrumento utilizado para avaliar diferentes aspectos da saúde sexual.

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Tratamento personalizado pode ser um caminho para a menopausa

Os resultados indicam que a resposta à terapia hormonal não depende exclusivamente da dose ou do tipo de hormônio administrado. A composição do microbioma também pode participar desse processo.

Essa descoberta abre possibilidades para uma abordagem mais personalizada, considerando as características bacterianas de cada mulher antes de definir estratégias terapêuticas.

Entretanto, é importante destacar que o estudo não estabelece que a análise da microbiota já deva ser utilizada rotineiramente para escolher tratamentos. São necessários outros estudos para confirmar como esses resultados podem ser aplicados na prática clínica.

A terapia hormonal também não é indicada indistintamente para todas as mulheres. Sua utilização exige avaliação individualizada, considerando sintomas, histórico de saúde, contraindicações e possíveis riscos.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn