Terra pode continuar aquecendo por 150 anos mesmo após emissões zero

Organoides cerebrais reproduzem características de partes do cérebro humano. (Imagem: Getty Images)

O planeta pode continuar aquecendo mesmo depois que as emissões humanas de dióxido de carbono (CO₂) chegarem a zero. E o tamanho desse aquecimento adicional depende de quanto a temperatura global já terá subido. Essa é a conclusão de um estudo científico publicado em novembro de 2026, que revela como o nível de aquecimento acumulado pode influenciar o futuro climático da Terra.

A descoberta chama a atenção para um aspecto importante das mudanças climáticas: interromper as emissões de CO₂ não significa necessariamente interromper imediatamente o aumento da temperatura global. Dependendo do aquecimento alcançado anteriormente, o sistema climático pode continuar acumulando calor por décadas.

Os resultados ajudam a compreender por que limitar o aumento da temperatura média do planeta é tão importante. Além de reduzir os impactos ambientais atuais, evitar níveis mais elevados de aquecimento pode preservar maiores possibilidades de estabilização climática no futuro.

O aquecimento pode continuar mesmo com emissões zero

Quando as atividades humanas deixam de liberar CO₂ na atmosfera, o clima não responde de maneira instantânea. Isso acontece porque os oceanos, a atmosfera e os ecossistemas terrestres armazenam e trocam grandes quantidades de energia e carbono.

Esse fenômeno está relacionado ao chamado compromisso de temperatura com emissões zero, conceito que descreve a mudança adicional na temperatura global depois que as emissões antropogênicas de CO₂ são interrompidas.

Na prática, isso significa que o comportamento do clima após a interrupção das emissões depende das condições ambientais acumuladas anteriormente.

Por isso, alcançar emissões líquidas zero é fundamental, mas o nível de aquecimento atingido antes desse momento também influencia o resultado climático de longo prazo.

Pesquisa identifica diferença importante acima de 2 °C

Infográfico: risco de aquecimento extra após o fim do CO₂. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

O estudo foi publicado em 3 de novembro de 2026 na revista científica Nature Climate Change. A pesquisa tem como primeira autora Laura Gibbs e utilizou simulações do Modelo do Sistema Terrestre do Reino Unido, denominado UKESM1.2.

Os pesquisadores avaliaram diferentes cenários de aquecimento global, abrangendo temperaturas entre 1,5 °C e 5 °C acima dos níveis pré-industriais.

Os resultados mostraram um comportamento importante: o compromisso de aquecimento adicional permaneceu próximo de zero até 2 °C de aquecimento global. Entretanto, em níveis superiores, a tendência mudou.

Nas simulações com aquecimento mais intenso, o planeta apresentou potencial para continuar aquecendo mesmo depois da interrupção das emissões de CO₂.

Em determinados cenários, esse aumento adicional chegou a aproximadamente 0,4 °C a 0,6 °C após cerca de 150 anos.

Embora pareça uma diferença pequena quando observada isoladamente, algumas frações de grau podem representar mudanças importantes para os ecossistemas, os oceanos e os padrões climáticos.

Oceanos e florestas têm papel importante nessa dinâmica

Uma das explicações identificadas pelos pesquisadores envolve a capacidade natural do planeta de absorver carbono.

Florestas, solos e oceanos funcionam como sumidouros naturais de carbono, retirando parte do CO₂ presente na atmosfera. Contudo, essa capacidade não permanece necessariamente igual em todas as condições climáticas.

Com o aumento das temperaturas, os mecanismos responsáveis pela absorção de carbono podem perder eficiência. Além disso, a pesquisa identificou que a absorção de carbono pelos ambientes terrestres pode se aproximar da saturação em determinados cenários.

Outro fator envolve o desequilíbrio radiativo, relacionado à diferença entre a energia que a Terra recebe do Sol e aquela que devolve ao espaço.

Em condições de aquecimento mais intenso, essas alterações podem favorecer um compromisso maior com temperaturas futuras mais elevadas.

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Por que evitar o aquecimento elevado é tão importante?

Os resultados indicam que quanto maior for o pico de aquecimento global, mais difícil poderá ser estabilizar ou reverter o aumento da temperatura.

Isso não significa que reduzir as emissões perca sua importância quando determinados limites são ultrapassados. Pelo contrário, diminuir a liberação de gases de efeito estufa continua sendo essencial para limitar o aquecimento futuro.

A pesquisa mostra, entretanto, que evitar níveis elevados de temperatura pode fazer diferença até mesmo depois que as emissões de CO₂ forem interrompidas.

Compreender essas relações ajuda a dimensionar os desafios climáticos das próximas décadas e a importância de proteger os ecossistemas que participam naturalmente do equilíbrio do carbono.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn