Efeito Nocebo: Como ler a bula do remédio pode fazer você sentir os efeitos colaterais 

Expectativas podem influenciar sintomas reais no corpo. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Expectativas podem influenciar sintomas reais no corpo. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Você pega um medicamento pela primeira vez, abre a bula e encontra uma longa lista de possíveis efeitos colaterais. Náusea, tontura, dor de cabeça, desconforto abdominal. Alguns minutos depois de tomar o comprimido, surge uma sensação estranha no estômago. O curioso é que, em muitos casos, o remédio sequer teve tempo de ser absorvido pelo organismo.

Então o que aconteceu?

A resposta pode estar em um fenômeno fascinante da neurociência chamado efeito nocebo, considerado por muitos pesquisadores o “gêmeo malvado” do efeito placebo. Enquanto o placebo produz benefícios impulsionados por expectativas positivas, o nocebo faz exatamente o oposto: expectativas negativas podem desencadear sintomas reais e mensuráveis.

Quando a expectativa muda a percepção do corpo

O cérebro não funciona apenas reagindo ao que acontece no organismo. Ele também faz previsões sobre o que acredita que vai acontecer.

Quando uma pessoa espera sentir um efeito adverso, áreas cerebrais relacionadas à atenção, emoção e percepção corporal podem aumentar a vigilância sobre qualquer sensação física, por menor que ela seja.

Como consequência, sinais normalmente ignorados passam a ganhar destaque na consciência.

Esse processo ajuda a explicar por que algumas pessoas relatam sintomas logo após iniciar um tratamento, mesmo antes de o medicamento atingir concentrações capazes de produzir efeitos farmacológicos.

A química da ansiedade entra em ação

O efeito nocebo não acontece apenas na imaginação.

Estudos mostram que ele envolve alterações neurobiológicas reais, incluindo a participação da colecistocinina (CCK), uma molécula que atua tanto no sistema digestivo quanto no sistema nervoso.

Quando a ansiedade aumenta, a liberação de CCK pode contribuir para amplificar a percepção da dor, do desconforto e de outros sintomas físicos.

Além disso, estruturas cerebrais associadas ao medo e à antecipação passam a influenciar a forma como o organismo interpreta estímulos corporais comuns.

Em outras palavras, a expectativa negativa pode modificar a experiência física de maneira concreta.

O que as imagens do cérebro revelaram

Pesquisas de neuroimagem mostram que o efeito nocebo está associado à ativação de regiões cerebrais ligadas ao processamento emocional e à percepção da dor.

Essas áreas incluem estruturas envolvidas na antecipação de ameaças, no controle da atenção e na interpretação de sensações corporais.

Os exames demonstram que a expectativa de um efeito colateral não apenas altera o pensamento da pessoa, mas também modifica a atividade cerebral observável em laboratório.

Por isso, os sintomas produzidos pelo efeito nocebo são reais para quem os sente, mesmo quando não são causados diretamente pelo medicamento.

O que as pesquisas recentes estão mostrando 

Uma meta-análise publicada em fevereiro de 2025 na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews, liderada por Madeline V. Stein, analisou 105 experimentos envolvendo mais de 5 mil participantes. Os pesquisadores observaram que a expectativa de sintomas foi um dos fatores mais importantes para a ocorrência de efeitos nocebo. O estudo mostrou que sugestões verbais, observação de experiências negativas e condicionamento psicológico podem influenciar significativamente a intensidade dos sintomas percebidos.

Outra pesquisa publicada em 2025 na revista eLife, liderada por Angelika Kunkel, concluiu que os efeitos nocebo podem ser não apenas intensos, mas também mais persistentes do que os efeitos placebo em determinadas situações experimentais.

Ler a bula continua sendo importante

Nada disso significa que as pessoas devem deixar de ler a bula dos medicamentos.

As informações sobre riscos e efeitos adversos são fundamentais para o uso seguro dos tratamentos.

O que a ciência mostra é que a forma como interpretamos essas informações também influencia nossa experiência. Conhecer o efeito nocebo ajuda a entender que nem todo sintoma percebido imediatamente após tomar um medicamento é necessariamente causado pela ação farmacológica da substância.

O cérebro e o corpo mantêm uma comunicação constante. E, às vezes, aquilo que esperamos sentir pode ter um impacto muito maior do que imaginamos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn