Cientistas revivem animal congelado há 24 mil anos na Sibéria

Organismo congelado por milênios volta à vida e surpreende a ciência (Imagem: Getty Images via Canva)
Organismo congelado por milênios volta à vida e surpreende a ciência (Imagem: Getty Images via Canva)

A ciência acaba de avançar na compreensão dos limites da vida. Um organismo microscópico, preservado por cerca de 24 mil anos no gelo da Sibéria, foi reativado em laboratório e voltou a apresentar atividade biológica, como se tivesse apenas “pausado” sua existência. O estudo, divulgado na revista Current Biology, reforça o potencial de sobrevivência de formas de vida em condições extremas.

O ser analisado é um rotífero bdeloide, um animal multicelular microscópico bastante comum em ambientes aquáticos. Mesmo com estrutura simples, ele revelou uma resistência impressionante ao atravessar milênios em estado congelado.

  • Recuperou atividade metabólica e voltou a se alimentar;
  • Reiniciou a reprodução de forma assexuada;
  • Permaneceu preservado em profundidade por milhares de anos;
  • Foi encontrado em solo congelado permanente (permafrost).

Congelado no tempo: uma cápsula natural de preservação

O rotífero foi encontrado em uma região de permafrost, um tipo de solo permanentemente congelado que funciona como uma verdadeira cápsula do tempo. Esse ambiente impede a decomposição e mantém organismos isolados por longos períodos.

A datação por radiocarbono indicou que o material analisado pertence ao período do Pleistoceno Tardio, época em que grandes mamíferos, como mamutes, ainda habitavam a Terra. Isso significa que o organismo permaneceu congelado desde aquele período, sem sofrer descongelamentos intermediários.

Descoberta revela até onde a vida pode resistir em condições extremas (Imagem: Getty Images via Canva)
Descoberta revela até onde a vida pode resistir em condições extremas (Imagem: Getty Images via Canva)

O segredo da sobrevivência extrema: criptobiose

A chave para essa resistência está em um processo chamado criptobiose. Nesse estado, o organismo praticamente interrompe seu metabolismo, reduzindo suas funções vitais ao mínimo necessário para sobreviver. Durante a criptobiose, o rotífero consegue resistir a condições extremas, como:

  • Temperaturas extremamente baixas;
  • Falta de água (desidratação);
  • Ausência de oxigênio;
  • Pressões ambientais adversas.

Esse mecanismo permite que o organismo “pause” sua atividade biológica e a retome quando as condições se tornam favoráveis novamente.

Descoberta redefine os limites da sobrevivência biológica na Terra

Antes desse estudo, acreditava-se que rotíferos poderiam sobreviver congelados por no máximo alguns anos. Agora, essa descoberta amplia esse limite para dezenas de milhares de anos, estabelecendo um novo marco na biologia.

Além disso, o achado levanta questões importantes sobre a possibilidade de vida em ambientes extremos, inclusive fora da Terra. No entanto, é importante destacar que essa capacidade ainda está restrita a organismos extremamente simples. A aplicação desse tipo de preservação em seres mais complexos permanece distante da realidade.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes