Cientistas descobrem novo alvo contra Alzheimer e identificam 12 medicamentos promissores

Estudo investiga medicamentos que podem ser reposicionados. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Uma nova estratégia para encontrar tratamentos contra o Alzheimer acaba de revelar um alvo biológico que pode abrir uma frente diferente na luta contra a doença. Em um estudo publicado em 8 de outubro de 2026, cientistas integraram dados genéticos, informações moleculares, experimentos com células humanas e registros de saúde para procurar mecanismos capazes de modificar o risco da doença.

O resultado foi expressivo: a análise identificou 19 possíveis alvos terapêuticos em pessoas de ascendência europeia e sete em pessoas de ascendência africana. Entre eles, um chamou atenção especial: o EPHX2. Além disso, dados de saúde envolvendo 111.680 pessoas com comprometimento cognitivo leve apontaram 12 medicamentos associados a uma menor incidência posterior de Alzheimer.

Um alvo escondido entre milhares de possibilidades

O EPHX2 produz uma enzima conhecida como epóxido hidrolase 2, envolvida na quebra de moléculas lipídicas que podem exercer efeitos protetores sobre os neurônios.

A análise genética indicou que níveis mais elevados dessa proteína estavam associados a maior risco de Alzheimer. Por outro lado, uma variante genética específica, chamada p.Arg287Gln, apresentou um efeito aparentemente protetor.

Para entender melhor essa pista, os pesquisadores foram além dos dados genéticos. Eles utilizaram neurônios derivados de células-tronco pluripotentes induzidas e organoides cerebrais obtidos a partir de pacientes com Alzheimer.

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Nesses modelos, a variante protetora esteve relacionada a níveis menores de EPHX2 e de tau fosforilada, uma forma alterada da proteína tau associada à neurodegeneração.

Bloquear uma proteína melhora o desempenho cerebral

Estudo pré-clínico: inibidor melhora cognição em camundongos. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

A descoberta ganhou uma etapa experimental ainda mais interessante.

Em um modelo de camundongo utilizado para estudar Alzheimer, os pesquisadores testaram o EC5026, uma molécula capaz de inibir a EPHX2. Os animais tratados apresentaram redução da carga de beta-amiloide e de sinais de inflamação cerebral.

Além disso, os camundongos apresentaram melhora em diferentes testes utilizados para avaliar memória e desempenho cognitivo.

Esse resultado não significa que um medicamento contra EPHX2 já esteja disponível para pessoas com Alzheimer. Trata-se de uma evidência pré-clínica, mas que ajuda a sustentar a ideia de que esse alvo merece investigação terapêutica.

12 medicamentos chamaram atenção nos registros de pacientes

A pesquisa não ficou restrita ao laboratório. Os cientistas também analisaram dados eletrônicos de saúde de 111.680 pessoas com comprometimento cognitivo leve para procurar medicamentos já utilizados na prática clínica que apresentassem associação com menor incidência de Alzheimer.

Essa etapa identificou 12 medicamentos associados a uma redução da incidência da doença.

Entre os exemplos destacados pelos pesquisadores estão a trazodona, relacionada ao alvo ADRA1A, e o baclofeno, que atua sobre o GABBR1. O estudo utilizou essas informações como uma forma de investigar possíveis oportunidades de reposicionamento de medicamentos, ou seja, avaliar se fármacos existentes podem ter utilidade em uma doença diferente daquela para a qual foram originalmente desenvolvidos.

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Uma nova estratégia para procurar tratamentos

O trabalho foi publicado na revista Nature Neuroscience em 8 de outubro de 2026, tendo Yuan Hou como primeiro autor.

O diferencial está justamente na combinação de diferentes fontes de evidência. Os pesquisadores uniram genética humana, dados multiômicos, experimentos celulares, organoides cerebrais, modelos animais e registros eletrônicos de saúde.

Ainda assim, é essencial separar descoberta de tratamento. Os 12 medicamentos foram identificados por associações em dados de pacientes, enquanto o EPHX2 recebeu validações experimentais adicionais. Isso não significa que os medicamentos devam ser usados para prevenir Alzheimer nem que a inibição de EPHX2 já seja uma terapia comprovada.

A descoberta, porém, abre novas possibilidades para uma doença em que encontrar alvos terapêuticos eficazes continua sendo um dos maiores desafios da neurologia.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes