A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é uma doença neurodegenerativa que compromete progressivamente os neurônios responsáveis pelos movimentos voluntários. Com o avanço da doença, atividades como caminhar, falar, engolir e respirar podem se tornar cada vez mais difíceis. Embora a perda dessas células nervosas seja uma característica central da ELA, os mecanismos envolvidos nesse processo ainda estão sendo investigados.
Uma pesquisa publicada em outubro de 2026 identificou uma possível peça desse quebra-cabeça: os astrócitos, células que dão suporte aos neurônios, podem contribuir para falhas no transporte de energia dentro das células nervosas. A descoberta ajuda a compreender como alterações em células vizinhas podem afetar a sobrevivência e o funcionamento dos neurônios motores.
Células de suporte podem influenciar a saúde dos neurônios
O cérebro não funciona apenas por meio dos neurônios. Ele também depende de outras células, entre elas os astrócitos, que participam da manutenção do ambiente cerebral, do suporte metabólico e da regulação das condições necessárias para a comunicação entre células nervosas.
Em condições normais, essa cooperação ajuda os neurônios a manter suas atividades. Entretanto, quando os astrócitos apresentam alterações, o suporte oferecido pode ser prejudicado.
Na ELA, esse processo merece atenção porque os neurônios motores possuem prolongamentos chamados axônios, que podem se estender por grandes distâncias até alcançar os músculos. Para funcionar adequadamente, essas estruturas precisam receber energia e transportar componentes celulares entre diferentes regiões.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppAs mitocôndrias, responsáveis por produzir grande parte da energia utilizada pelas células, são essenciais nesse mecanismo. Se o deslocamento dessas estruturas ao longo dos axônios falha, o funcionamento dos neurônios pode ser comprometido.
Estudo encontrou uma ligação entre astrócitos e transporte de energia
Publicado em 7 de outubro de 2026 na revista científica Nature Neuroscience, o estudo foi liderado por Maria Stavrou e investigou a relação entre astrócitos e neurônios motores em modelos celulares associados à ELA.
Os pesquisadores analisaram células portadoras de uma alteração genética no gene C9ORF72, uma das causas genéticas mais conhecidas da doença. Para isso, utilizaram modelos celulares humanos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas, que podem ser direcionadas para se transformar em diferentes tipos celulares.
Nos experimentos, os astrócitos com a alteração genética prejudicaram o transporte das mitocôndrias ao longo dos axônios dos neurônios motores. Também foram observadas alterações na função mitocondrial dessas células nervosas.
Um resultado importante surgiu quando os pesquisadores utilizaram astrócitos geneticamente corrigidos ou aumentaram a atividade bioenergética das mitocôndrias dos próprios astrócitos. Nessas condições experimentais, os problemas de transporte mitocondrial nos neurônios motores foram revertidos.
Por que as mitocôndrias são importantes na ELA?
Os neurônios motores precisam de energia para transmitir sinais elétricos e manter suas estruturas. Como os axônios podem ser muito longos, as mitocôndrias precisam ser distribuídas de maneira adequada para atender às necessidades energéticas de diferentes regiões celulares.
Quando esse transporte é prejudicado, partes do neurônio podem não receber o suporte necessário. Além disso, alterações no funcionamento das mitocôndrias podem comprometer outros processos celulares.
A pesquisa sugere que a disfunção dos astrócitos e os problemas de transporte mitocondrial podem estar conectados, em vez de representarem fenômenos completamente independentes.
No entanto, é importante destacar que os resultados foram obtidos em modelos celulares. Eles não demonstram, por si só, que corrigir a atividade dos astrócitos seja um tratamento eficaz em seres humanos. São necessários outros estudos para avaliar a relevância desses mecanismos no organismo e descobrir se eles podem ser explorados terapeuticamente.
Veja também:
Uma nova perspectiva para investigar a doença
A ELA apresenta mecanismos complexos, que podem envolver fatores genéticos, alterações metabólicas e interações entre diferentes tipos de células do sistema nervoso. Por isso, compreender o papel dos astrócitos pode ajudar os pesquisadores a investigar a doença para além dos próprios neurônios motores.
Embora ainda não represente uma solução clínica, a descoberta aponta para um caminho de pesquisa: preservar a comunicação e o suporte metabólico entre as células nervosas pode ser relevante para compreender como a ELA progride.
