Estudo identifica mudanças em uma região do cérebro ligadas à depressão

Pesquisadores observaram mudanças na atividade de neurônios durante o estresse. (Imagem: Getty Images)

A depressão envolve alterações que vão muito além da tristeza. O estresse persistente pode modificar circuitos cerebrais relacionados às emoções, à motivação e à maneira como o organismo reage a experiências negativas. Entender quando essas mudanças começam é um dos desafios da neurociência e pode ajudar a orientar o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes.

Uma pesquisa identificou alterações moleculares e na atividade dos neurônios de uma região cerebral chamada habenula lateral, associadas ao surgimento de comportamentos semelhantes aos observados na depressão. Os resultados também indicaram que a cetamina, um medicamento com ação antidepressiva, foi capaz de reverter essas alterações nos animais estudados.

A descoberta oferece pistas sobre a relação entre estresse crônico, funcionamento cerebral e sintomas depressivos. Entretanto, como a investigação foi realizada em camundongos machos, ainda são necessários estudos para determinar se os mesmos mecanismos ocorrem em seres humanos.

Habenula lateral: uma pequena região com papel importante

Localizada em uma área profunda do cérebro, a habenula lateral participa de circuitos envolvidos no processamento de experiências desagradáveis, na avaliação de resultados negativos e na regulação de respostas comportamentais.

Em determinadas circunstâncias, sua atividade ajuda o organismo a aprender com experiências desfavoráveis. No entanto, alterações nesse circuito podem modificar a maneira como o cérebro responde a estímulos aversivos, isto é, situações percebidas como desagradáveis ou ameaçadoras.

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Pesquisas anteriores já relacionavam a habenula lateral a mecanismos envolvidos na depressão. A nova investigação procurou avançar nessa questão, examinando não apenas quais mudanças acontecem, mas também como elas se desenvolvem ao longo do tempo após a exposição repetida ao estresse.

Esse detalhe é importante porque a depressão não surge necessariamente de uma única alteração cerebral. Ela envolve processos complexos, influenciados por fatores biológicos, psicológicos e ambientais.

O estresse prolongado altera a atividade dos neurônios

Estresse prolongado remodela neurônios e se liga a comportamentos de depressão. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Publicado em 19 de outubro de 2026, na revista científica Nature Neuroscience, o estudo foi liderado por Patricia Molina e colaboradores. Os pesquisadores utilizaram técnicas de análise molecular e microscopia para acompanhar mudanças na habenula lateral de camundongos submetidos a estresse crônico.

Uma das técnicas empregadas foi a transcriptômica espacial, que permite investigar quais genes estão ativos em diferentes regiões de um tecido. Com isso, a equipe identificou mudanças na expressão gênica organizadas espacialmente e que se modificavam conforme o tempo de exposição ao estresse.

Além disso, os cientistas monitoraram a atividade de neurônios individuais por meio de imagens de cálcio obtidas in vivo. Os resultados indicaram que as células nervosas passaram a apresentar respostas progressivamente mais intensas diante de estímulos aversivos.

Essas alterações acompanharam o surgimento de comportamentos associados à depressão nos animais. A combinação dos resultados moleculares e funcionais ajudou a relacionar a remodelação da habenula lateral à progressão dessas manifestações.

É importante destacar que comportamentos semelhantes aos da depressão em animais não equivalem a um diagnóstico de depressão humana. Os modelos experimentais permitem investigar mecanismos biológicos, mas não reproduzem toda a complexidade da experiência emocional humana.

Cetamina reverteu alterações observadas no cérebro

Outro resultado relevante envolveu a cetamina, medicamento conhecido por sua ação antidepressiva de início rápido em determinadas situações clínicas.

No experimento, os pesquisadores observaram que o tratamento foi capaz de reverter alterações na atividade neuronal da habenula lateral. Além disso, a administração do medicamento no início do processo de remodelação produziu efeitos favoráveis sobre os comportamentos avaliados.

Os cientistas também utilizaram uma técnica chamada quimiogenética para limitar experimentalmente a atividade dos neurônios dessa região. Essa intervenção produziu efeitos semelhantes aos antidepressivos nos animais, sugerindo que a atividade excessiva da habenula lateral pode participar dos mecanismos relacionados ao estresse crônico.

Esses resultados ajudam a compreender por que investigar circuitos cerebrais específicos pode ser importante para desenvolver novas abordagens terapêuticas.

Entretanto, o estudo não demonstra que a cetamina previna a depressão em seres humanos. Seu uso clínico exige avaliação especializada, e o medicamento não deve ser utilizado por conta própria.

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Descoberta pode ajudar a compreender o início da depressão

A pesquisa oferece uma perspectiva importante: alterações relacionadas ao estresse podem se desenvolver progressivamente, acompanhadas por mudanças na expressão dos genes e na atividade dos neurônios.

No futuro, compreender melhor essa sequência poderá ajudar cientistas a identificar mecanismos envolvidos no surgimento dos sintomas depressivos e investigar em que momento determinadas intervenções seriam mais eficazes.

Ainda assim, são necessários estudos adicionais para verificar se essas alterações também ocorrem em seres humanos, inclusive em mulheres, que não foram incluídas no modelo animal apresentado.

A depressão é uma condição multifatorial e não pode ser explicada por uma única região cerebral. Os resultados representam uma contribuição para esse campo de pesquisa, mas não estabelecem um método de diagnóstico ou prevenção baseado na habenula lateral.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes