Celular à noite pode estar por trás daquela vontade inesperada de comer doces 

O uso noturno do celular pode afetar o sono e a alimentação. (Imagem: Fala Ciência)

A cena é comum: luzes apagadas, celular na mão e alguns minutos de vídeos ou redes sociais antes de dormir. Pouco depois, surge aquela vontade de comer alguma coisa, especialmente doces, massas, biscoitos ou outros alimentos ricos em carboidratos.

Mas existe uma explicação biológica para isso?

A relação entre uso de telas à noite, sono e desejo alimentar é mais complexa do que parece. Até o momento, não há evidência suficiente para afirmar que simplesmente mexer no celular no escuro provoque diretamente vontade de comer doces. Entretanto, o uso noturno pode interferir na rotina de sono, e pesquisas recentes mostram que sonolência e alterações relacionadas ao sono estão associadas a desejos alimentares específicos.

A tela pode prolongar o estado de alerta justamente na hora de desacelerar

Como o uso noturno do celular afeta o sono e aumenta a fome. (Imagem: Fala Ciência)

O problema não está necessariamente apenas na luz emitida pelo aparelho. O conteúdo consumido também importa.

Vídeos, jogos, mensagens e redes sociais podem manter o cérebro envolvido quando o organismo deveria começar a entrar em um estado de menor ativação. Além disso, quando o celular prolonga o horário de dormir, a pessoa pode acabar acumulando menos horas de sono.

Essa combinação é relevante porque sono e alimentação estão biologicamente conectados. Alterações no descanso podem influenciar mecanismos relacionados à fome, saciedade, recompensa e preferência alimentar.

Portanto, uma noite em que alguém permanece mais tempo no celular pode criar um contexto favorável para comer mais tarde, mas isso não significa que a tela, isoladamente, seja responsável pelo desejo por açúcar.

A relação entre cansaço e vontade de certos alimentos

Uma pesquisa publicada na revista científica PLOS ONE investigou a relação entre sonolência durante o dia e desejos por determinados tipos de alimentos.

O estudo, liderado por Emma K. Romaker, foi publicado em 9 de março de 2026. Os pesquisadores avaliaram adultos e observaram como a sonolência se relacionava com desejos alimentares, considerando também a sensibilidade à insulina.

Os resultados indicaram uma associação entre maior sonolência e desejos por determinados alimentos, com a sensibilidade à insulina modificando parte dessas relações. O trabalho, porém, não avaliou especificamente o uso de celulares no escuro antes de dormir. Portanto, seus resultados não permitem concluir que o smartphone seja a causa desses desejos.

Essa diferença é importante. O estudo fornece uma peça do quebra-cabeça, mas não comprova a sequência “celular no escuro → sono pior → vontade de doces”.

A madrugada pode mudar a percepção da fome

Quando o horário de dormir é constantemente adiado, a alimentação também pode acabar sendo empurrada para mais tarde.

Nesse cenário, o desejo por alimentos muito palatáveis pode ganhar espaço. Doces e carboidratos refinados costumam ser opções facilmente disponíveis e podem parecer especialmente atraentes quando a pessoa está cansada.

Além disso, existe um componente comportamental. Se o celular costuma acompanhar momentos de relaxamento, assistir a vídeos ou navegar nas redes pode se transformar em um sinal associado ao hábito de beliscar.

Assim, o comportamento pode funcionar como um ciclo: tela, horário mais tarde, menor sono e alimentação noturna.

O detalhe que faz diferença é o conjunto de hábitos

Em vez de culpar exclusivamente a luz do celular, é mais adequado observar o comportamento como um todo.

Alguns fatores que podem estar envolvidos são:

  • Horário em que o celular é usado
  • Duração do uso antes de dormir
  • Conteúdo consumido
  • Quantidade e regularidade do sono
  • Horário das refeições
  • Estresse e cansaço acumulados

Por isso, se a vontade de comer aparece repetidamente durante a noite, vale observar primeiro como estão o sono e a rotina, em vez de interpretar automaticamente o desejo por doces como consequência direta da tela.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn