Células de defesa do cérebro podem mudar como a anestesia funciona

Células cerebrais e microglia influenciam a sensibilidade do organismo ao propofol (Imagem: Getty images)

A anestesia geral é um dos recursos mais importantes da medicina moderna. Com ela, procedimentos cirúrgicos podem ser realizados sem que o paciente permaneça consciente ou experimente a percepção normal da dor. Entretanto, os mecanismos cerebrais responsáveis pela perda de consciência ainda estão sendo investigados pela ciência.

Um estudo recente revelou um participante pouco esperado nesse processo: a microglia, um conjunto de células que atua na defesa e na manutenção do tecido nervoso. Os pesquisadores identificaram que essas células podem influenciar a sensibilidade do cérebro ao propofol, um dos anestésicos intravenosos utilizados em procedimentos médicos.

A descoberta mostra que a resposta à anestesia não depende apenas da comunicação entre neurônios, mas também de mecanismos regulados por outras células cerebrais.

Células de defesa também interferem na perda de consciência

A microglia é formada por células especializadas do sistema nervoso central. Sua função inclui monitorar o ambiente cerebral, remover resíduos celulares, participar de respostas imunológicas e colaborar com a manutenção das conexões entre neurônios.

No entanto, essas células também podem participar da regulação da atividade neuronal por meio da liberação de moléculas sinalizadoras.

Foi justamente esse aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores. A investigação, liderada por Boxu Cao e publicada em 2 de novembro de 2026, na revista científica Nature Communications, identificou uma via de comunicação envolvendo a proteína PDGFB, produzida de maneira dependente da microglia, e sua influência sobre a atividade neuronal em camundongos.

Os resultados apontaram que essa sinalização interfere na expressão e na regulação do canal de potássio KCND2, localizado em neurônios de uma região cerebral chamada núcleo paraventricular do hipotálamo.

O que acontece no cérebro quando o propofol é administrado?

Microglia e neurônios interagem, influenciando circuitos cerebrais e a sensibilidade ao propofol (Imagem: Getty images)

O propofol atua principalmente sobre os receptores GABA-A, proteínas presentes na membrana dos neurônios que participam da transmissão de sinais inibitórios.

O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Quando sua ação é potencializada, a atividade de determinados circuitos neuronais diminui, favorecendo os efeitos anestésicos.

Entretanto, a nova pesquisa identificou outro mecanismo envolvido nessa resposta: a regulação da excitabilidade dos neurônios do hipotálamo.

Essa região cerebral participa de diversas funções, incluindo controle hormonal, respostas fisiológicas e regulação dos estados de sono e vigília.

Os pesquisadores observaram que a proteína PDGFB influencia o funcionamento do canal KCND2, que participa do controle da atividade elétrica dos neurônios por meio do fluxo de íons potássio.

Dessa maneira, a comunicação entre microglia e neurônios pode modificar a facilidade com que determinados circuitos cerebrais permanecem ativos durante a indução anestésica.

A ausência de microglia pode dificultar a indução anestésica

Para investigar essa relação, os cientistas utilizaram modelos experimentais com camundongos e avaliaram o que acontecia quando a microglia era reduzida ou eliminada.

Os resultados mostraram que a diminuição dessas células provocou uma deficiência na sinalização de PDGFB. Consequentemente, houve redução da regulação do KCND2, aumentando a excitabilidade dos neurônios do núcleo paraventricular do hipotálamo.

Esse processo também provocou maior ativação de um circuito cerebral que conecta o núcleo paraventricular ao hipotálamo lateral, região envolvida na manutenção do estado de alerta.

Com esse circuito mais ativo, os animais apresentaram maior resistência à indução da anestesia com propofol.

Em outras palavras, a ausência da sinalização adequada entre microglia e neurônios dificultou a entrada dos camundongos no estado anestésico.

Uma nova peça para compreender a anestesia geral

A descoberta amplia a compreensão sobre como o cérebro responde aos anestésicos. Embora os receptores GABA-A continuem sendo fundamentais para explicar a ação do propofol, a pesquisa demonstra que mecanismos envolvendo células não neuronais também participam desse processo.

O estudo foi realizado em camundongos, portanto, ainda não permite afirmar que a mesma relação tenha a mesma importância em seres humanos ou que possa modificar diretamente os protocolos utilizados em cirurgias.

Mesmo assim, compreender como a microglia, a proteína PDGFB e o canal KCND2 interagem pode abrir novas possibilidades para investigar as diferenças individuais na sensibilidade aos anestésicos e os mecanismos cerebrais envolvidos na perda de consciência.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um professional de saúde qualificado.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes