Envelhecimento pode apagar células cerebrais que funcionam como um GPS da memória

Estudo revela que o envelhecimento reduz neurônios essenciais para a orientação espacial e a memória (Imagem: Getty images)

O cérebro humano precisa reconhecer caminhos, identificar lugares e recuperar informações sobre ambientes conhecidos para que possamos nos orientar no espaço. Entretanto, essa capacidade pode sofrer alterações ao longo do envelhecimento. Agora, uma pesquisa científica identificou um tipo específico de neurônio cuja redução pode estar relacionada a essas dificuldades cognitivas.

A descoberta envolve os chamados neurônios Bglap3+, encontrados no córtex entorrinal medial, uma região cerebral importante para a orientação espacial e a formação de memórias. Os resultados ajudam a compreender como mudanças celulares e moleculares podem comprometer o funcionamento dos circuitos responsáveis por representar nossa localização no ambiente.

Uma espécie de GPS biológico começa a perder precisão

Para entender a descoberta, é importante conhecer o papel do córtex entorrinal medial, uma região localizada no lobo temporal do cérebro e diretamente conectada ao hipocampo.

Essa estrutura participa da navegação espacial, ajudando o cérebro a identificar posições, distâncias e relações entre diferentes locais. Uma de suas características mais interessantes é a presença das chamadas células de grade, neurônios que apresentam padrões específicos de atividade conforme o indivíduo se desloca pelo ambiente.

Essas células funcionam como uma espécie de sistema interno de coordenadas. Em conjunto, ajudam a construir uma representação organizada do espaço, permitindo reconhecer trajetos e localizar pontos de referência.

Entretanto, com o envelhecimento, esse sistema pode perder precisão. Consequentemente, tarefas como lembrar onde determinado objeto foi colocado, reconhecer caminhos ou encontrar uma localização conhecida podem se tornar mais difíceis.

Neurônios Bglap3+ chamam a atenção dos pesquisadores

Redução de neurônios associados à orientação espacial pode explicar dificuldades de memória no envelhecimento (Imagem: Getty images)

Uma investigação publicada em 3 de novembro de 2026, na revista científica Nature Communications, liderada por Qichen Cao, analisou alterações celulares e moleculares relacionadas ao envelhecimento do córtex entorrinal medial.

Os pesquisadores compararam camundongos jovens e idosos e identificaram diferenças importantes na atividade e na composição celular dessa região cerebral.

Por meio de análises transcriptômicas, que permitem investigar quais genes estão ativos nas células e nos tecidos, a equipe identificou 1.664 genes com expressão diferente entre os animais das duas faixas etárias.

Entre esses genes, chamou a atenção o Bglap3, associado a uma subpopulação específica de neurônios localizados na camada III do córtex entorrinal medial.

Os pesquisadores observaram que a quantidade dessas células diminuía com a idade. Além disso, os animais idosos apresentavam menor proporção de células de grade e redução da estabilidade dos padrões de atividade espacial.

Quando essas células são silenciadas, a orientação espacial também muda

Para investigar se os neurônios Bglap3+ realmente participavam da organização espacial, os cientistas realizaram outro experimento.

Eles utilizaram uma técnica chamada silenciamento quimiogenético, que permite controlar a atividade de determinados grupos de neurônios por meio de receptores modificados e substâncias específicas.

Nesse procedimento, os pesquisadores reduziram artificialmente a atividade dos neurônios Bglap3+ em camundongos jovens.

O resultado foi significativo: o silenciamento dessas células prejudicou a sintonia espacial dos neurônios do córtex entorrinal medial. Em outras palavras, a atividade cerebral perdeu parte da precisão utilizada para representar posições no ambiente.

Esse experimento indica que os neurônios Bglap3+ desempenham uma função importante na codificação espacial, e não são apenas células que diminuem em quantidade durante o envelhecimento.

O que essa descoberta significa para a memória?

Os resultados ajudam a explicar por que o envelhecimento pode afetar habilidades relacionadas à orientação e à memória espacial. Afinal, navegar por um ambiente depende da integração de diferentes circuitos cerebrais, especialmente daqueles que conectam o córtex entorrinal ao hipocampo.

Entretanto, é importante destacar que a pesquisa foi realizada em camundongos. Portanto, ainda não é possível afirmar que a perda de neurônios Bglap3+ provoque os mesmos efeitos em seres humanos.

O estudo abre caminhos para novas investigações sobre os mecanismos celulares envolvidos no envelhecimento cerebral e sobre como preservar a atividade dos circuitos responsáveis pela orientação espacial.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes