Marinas podem estar espalhando espécies invasoras pelos oceanos, revela estudo

Marinas podem facilitar a entrada de espécies invasoras nos oceanos. (Imagem: Ver mais designs de zorotoo's Images)

Marinas e portos esportivos podem esconder uma ameaça silenciosa à biodiversidade dos oceanos. Sob barcos, plataformas, boias e estruturas submersas, organismos marinhos encontram superfícies disponíveis para se fixar, crescer e se reproduzir. O problema é que nem todos pertencem naturalmente àquele ambiente. Muitos chegam transportados por embarcações e conseguem estabelecer populações fora de sua área de origem.

Uma pesquisa realizada no Arquipélago da Madeira, em Portugal, identificou como essas estruturas funcionam como pontos persistentes de introdução de espécies marinhas não nativas. Ao acompanhar quatro marinas durante 11 anos, os cientistas observaram um aumento contínuo desses organismos, que passaram a representar quase metade das espécies encontradas nas estruturas monitoradas.

O resultado chama a atenção para o papel do transporte marítimo na disseminação de espécies invasoras e para os desafios de proteger ecossistemas insulares.

Barcos e estruturas submersas facilitam a chegada de novos organismos

O transporte de espécies marinhas acontece de diferentes maneiras. Uma das principais é a chamada bioincrustação, processo no qual organismos se fixam e crescem sobre superfícies submersas.

Embarcações podem transportar algas, moluscos, crustáceos, briozoários e outros organismos aderidos ao casco. Quando chegam a uma nova região, esses seres podem se desprender ou liberar larvas na água, favorecendo a colonização de ambientes onde antes não estavam presentes.

As marinas oferecem condições especialmente favoráveis porque concentram embarcações e estruturas artificiais que permanecem submersas por longos períodos.

Além disso, quando uma espécie consegue se estabelecer, pode continuar se reproduzindo e ampliando sua distribuição. Assim, a introdução deixa de ser um acontecimento isolado e passa a representar uma fonte contínua de novos indivíduos.

Onze anos de observações revelaram uma transformação gradual

Estudo revela aumento de espécies não nativas nas marinas da Madeira. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Para entender essa dinâmica, pesquisadores acompanharam quatro marinas do Arquipélago da Madeira entre 2013 e 2025. O levantamento reuniu 33 campanhas de monitoramento e 131 eventos de amostragem.

Ao todo, foram identificados 71 táxons, incluindo espécies nativas e não nativas. Um dos resultados mais importantes foi o crescimento progressivo da diversidade de organismos introduzidos.

Ao longo do período analisado, as espécies não indígenas chegaram a representar aproximadamente 45% a 48% da riqueza total registrada em cada marina. Isso correspondeu a cerca de 27 a 30 espécies não nativas por local.

Outro detalhe interessante foi que cada marina apresentou uma composição biológica própria. Mesmo com pouca diferença de temperatura entre os locais, a identidade de cada estrutura portuária foi o principal fator associado às diferenças nas comunidades encontradas.

Isso indica que as características locais e as condições de circulação de embarcações podem influenciar quais organismos conseguem se estabelecer.

Temperatura altera o ritmo de colonização durante o ano

A pesquisa também identificou diferenças importantes entre as estações.

Durante os períodos mais quentes, os cientistas observaram maior riqueza média de espécies em cada amostragem. Esse comportamento pode estar relacionado às condições favoráveis para a reprodução e o crescimento de determinados organismos.

Entretanto, os períodos mais frios apresentaram maior renovação acumulada de espécies ao longo do monitoramento.

Na prática, isso significa que o verão favoreceu a presença simultânea de mais organismos, enquanto as estações frias apresentaram maior substituição de espécies ao longo do tempo.

Algumas espécies invasoras coloniais, capazes de crescer rapidamente e ocupar superfícies disponíveis, também podem competir por espaço com organismos nativos.

Leia mais:

Estudo alerta para a necessidade de monitoramento contínuo

Os resultados foram publicados em 2 de novembro de 2026, na revista científica Scientific Reports. O estudo tem como primeiro autor Patrício Ramalhosa e contou com a participação de Nuno Castro, Soledad Álvarez, Ignacio Gestoso e João Canning-Clod.

A pesquisa demonstra que acompanhar as marinas por vários anos permite identificar mudanças que levantamentos pontuais poderiam deixar passar. Uma espécie encontrada uma única vez pode representar uma chegada ocasional, enquanto sua presença repetida indica a possibilidade de estabelecimento de uma população.

Por isso, os pesquisadores destacam a importância do monitoramento periódico e sazonal, especialmente em regiões insulares, onde a introdução de organismos pode provocar alterações significativas em ecossistemas com características próprias.

A prevenção também depende de medidas de biossegurança, como a limpeza adequada dos cascos das embarcações, a inspeção de estruturas submersas e o acompanhamento de espécies recém-chegadas.

Embora nem toda espécie não nativa se torne invasora, algumas podem competir com organismos locais, modificar habitats e alterar o equilíbrio ecológico.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn