Hormônio do estresse pode controlar o horário de funcionamento das células produtoras de insulina

Hormônios sincronizam a produção de insulina com o relógio biológico (Imagem: Getty images)

O funcionamento do organismo não permanece igual durante as 24 horas do dia. Enquanto dormimos, acordamos, nos alimentamos e realizamos atividades, diferentes órgãos ajustam seu metabolismo para acompanhar as necessidades do corpo. Esse mecanismo também acontece no pâncreas, um órgão fundamental para controlar a quantidade de glicose no sangue.

Uma descoberta científica mostra que os glicocorticoides, hormônios conhecidos principalmente por sua relação com a resposta ao estresse, desempenham um papel importante nesse processo. Além de participarem da regulação metabólica, essas substâncias ajudam a organizar a atividade das células pancreáticas responsáveis pela produção de insulina.

A pesquisa revela uma conexão entre hormônios, relógio biológico e controle da glicemia, indicando que o momento do dia pode influenciar a maneira como o pâncreas funciona.

As células que controlam o açúcar no sangue também têm horários

No pâncreas existem pequenas estruturas chamadas ilhotas pancreáticas, formadas por diferentes tipos celulares responsáveis pela produção de hormônios. Entre elas estão as células beta, que produzem e liberam insulina.

Esse hormônio permite que diversos tecidos absorvam a glicose presente na circulação, contribuindo para manter os níveis de açúcar no sangue dentro de uma faixa adequada.

Entretanto, as células beta não trabalham de maneira completamente constante. Sua atividade acompanha os ritmos circadianos, ciclos biológicos de aproximadamente 24 horas que coordenam diferentes funções do organismo.

Essa organização temporal ajuda o corpo a antecipar mudanças na disponibilidade de energia. Por isso, alterações no relógio biológico podem prejudicar processos metabólicos, inclusive a secreção de insulina.

O hormônio do estresse tem uma função inesperada no pâncreas

Glicocorticoides sincronizam as células pancreáticas com o relógio biológico, influenciando a secreção de insulina (Imagem: Getty images)

Os glicocorticoides são hormônios produzidos principalmente pelas glândulas suprarrenais. O cortisol é um dos exemplos mais conhecidos em seres humanos.

Sua concentração apresenta variações ao longo do dia, seguindo um padrão circadiano. Além de participar da resposta ao estresse, o cortisol influencia o metabolismo de carboidratos, proteínas e gorduras.

Para compreender como essa sinalização atua no pâncreas, Satish K. Sen e colaboradores publicaram, em 2 de novembro de 2026, um estudo na revista científica Nature Communications, investigando a atuação dos glicocorticoides sobre a atividade das células beta.

Os pesquisadores concentraram a atenção no receptor de glicocorticoides (GR), uma proteína que recebe os sinais hormonais e participa do controle da expressão dos genes.

Na prática, esse receptor funciona como uma espécie de intermediário: quando ativado, pode modificar quais genes são utilizados pelas células e em que intensidade isso acontece.

O que acontece quando esse sinal hormonal é interrompido?

Nos experimentos com camundongos, os pesquisadores eliminaram geneticamente o receptor de glicocorticoides especificamente nas células beta pancreáticas.

O resultado foi uma alteração na função dessas células, acompanhada por mudanças na expressão de genes relacionados à atividade pancreática.

A investigação também identificou que diversos genes regulados pelo receptor GR participam de processos importantes, como a identidade das células beta, a secreção de insulina e a organização dos ritmos circadianos.

Outro resultado interessante envolveu regiões do DNA conhecidas como enhancers. Essas sequências regulatórias ajudam a controlar a atividade de determinados genes, funcionando como interruptores que podem aumentar sua expressão.

Os pesquisadores observaram que genes associados a enhancers dependentes do receptor GR apresentavam variações de atividade ao longo do dia nas ilhotas pancreáticas.

Além disso, a administração de glicocorticoides em horários específicos conseguiu modificar a intensidade e até a fase desses padrões de expressão genética.

Alterar o relógio biológico também muda a atividade do pâncreas

Uma das descobertas mais interessantes ocorreu em camundongos machos submetidos à disrupção circadiana, condição experimental que altera a organização normal dos ciclos biológicos.

Nesses animais, o aumento da sinalização dos glicocorticoides melhorou a função das células beta e a regularidade da expressão de genes relacionados à secreção de insulina e ao relógio circadiano.

Isso indica que os glicocorticoides não participam apenas da resposta ao estresse. Eles também funcionam como sinais temporais, ajudando as células pancreáticas a organizar suas atividades de acordo com os horários do organismo.

Os resultados ainda precisam ser investigados em seres humanos. Portanto, não significam que a administração de cortisol ou de medicamentos semelhantes seja uma estratégia para prevenir ou tratar o diabetes.

Entretanto, a descoberta abre novas possibilidades para compreender como alterações no sono, no trabalho em turnos e na rotina diária podem interferir no metabolismo da glicose e na capacidade do pâncreas de liberar insulina.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um professional de saúde qualificado.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes