A conservação da natureza depende de uma informação fundamental: saber quais ambientes oferecem as melhores condições para a sobrevivência das espécies. Entretanto, identificar essas regiões em territórios extensos, com milhares de organismos diferentes, é um desafio que exige a análise de uma quantidade enorme de dados. Agora, uma abordagem que combina inteligência artificial, ecologia e planejamento territorial promete tornar esse trabalho mais preciso e estratégico.
A proposta utiliza modelos computacionais para identificar áreas com maior potencial de abrigar diferentes formas de vida. Dessa maneira, pesquisadores conseguem transformar informações sobre a distribuição das espécies em mapas que ajudam a determinar onde a proteção ambiental pode trazer os maiores benefícios.
Como a inteligência artificial consegue identificar habitats importantes?
A metodologia apresentada utiliza uma estrutura chamada Geodesign, que integra informações geográficas, modelagem ambiental e planejamento territorial. Na prática, o sistema analisa características de diferentes regiões para estimar sua adequação como habitat para os organismos.
Um dos recursos empregados é o modelo de Máxima Entropia (MaxEnt), utilizado na Modelagem de Distribuição de Espécies. Ele identifica relações entre registros de ocorrência dos organismos e condições ambientais, como clima, vegetação, solo e características da paisagem.
O diferencial está no uso de um processo de refinamento iterativo, no qual os modelos passam por sucessivas avaliações e ajustes. Assim, a ferramenta consegue aprimorar suas estimativas e produzir mapas que ajudam a estabelecer prioridades de conservação.
Milhares de espécies entraram na análise
Para testar a metodologia, os pesquisadores utilizaram dados do estado de Illinois, nos Estados Unidos. O levantamento reuniu 826.989 registros de ocorrência de 10.029 espécies, distribuídas em 11 classes taxonômicas.
A investigação contemplou diferentes grupos biológicos, incluindo fungos, invertebrados, vertebrados e plantas. Além disso, foram considerados 27 indicadores ambientais, com resolução espacial de 600 metros.
Os resultados mostraram uma melhora no desempenho médio dos modelos. A área sob a curva, conhecida pela sigla AUC, passou de 0,684 para 0,764 após o processo de refinamento.
Outro aspecto importante foi a comparação das previsões com observações realizadas em 542 áreas monitoradas por um programa de avaliação ambiental. A análise encontrou uma associação estatisticamente significativa, embora modesta, entre a riqueza de plantas observada em campo e as estimativas produzidas pelo modelo.
Isso indica que a tecnologia consegue identificar padrões ecológicos relevantes, mas suas previsões ainda precisam ser interpretadas com cautela e complementadas por avaliações de campo.
Florestas apresentaram uma diferença impressionante
Um dos resultados mais interessantes apareceu na comparação entre diferentes tipos de cobertura do solo. O estudo desenvolveu um Índice de Eficiência da Biodiversidade, utilizado para comparar a adequação dos habitats por unidade de área. Nesse indicador, as florestas decíduas apresentaram um resultado composto aproximadamente 120 vezes superior ao das áreas classificadas como terras áridas.
Essa diferença mostra como determinados ambientes podem concentrar condições mais favoráveis para a ocorrência de diferentes grupos de organismos.
Entretanto, isso não significa que regiões naturalmente abertas ou áridas sejam dispensáveis. Cada ecossistema possui características próprias e abriga espécies adaptadas às suas condições ambientais. Portanto, a conservação precisa considerar também a diversidade de ambientes, e não apenas aqueles com os maiores índices.
Apenas uma pequena parcela das terras estava protegida
A análise também identificou uma lacuna importante na conservação de Illinois: somente 4,42% das terras estaduais estavam em áreas protegidas.
Além disso, a distribuição dessas áreas não correspondia adequadamente às regiões apontadas pelos modelos como prioritárias, especialmente no corredor do rio Mississippi e nas colinas de Shawnee.
Os pesquisadores estabeleceram diferentes níveis de prioridade para estimar a expansão necessária da proteção ambiental. Para uma estratégia mais abrangente, alinhada à meta internacional 30×30, seria necessário acrescentar aproximadamente 4,64 milhões de hectares de áreas prioritárias.
A meta 30×30 estabelece o objetivo de conservar pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030.
O trabalho, liderado por Jiajia Wang e publicado em 3 de novembro de 2026, na revista científica npj Biodiversity, apresenta uma possibilidade interessante: utilizar inteligência artificial não apenas para compreender onde as espécies vivem, mas também para orientar decisões concretas sobre o futuro dos ecossistemas.
Com mapas mais detalhados e critérios quantitativos, gestores ambientais podem identificar lacunas de proteção, comparar alternativas de uso do solo e direcionar investimentos para regiões ecologicamente importantes.
