Roedor do deserto transforma suas pernas em verdadeiras molas; entenda como

Articulações coordenadas das patas traseiras do jerboa garantem saltos rápidos e eficientes no deserto (Imagem: Getty images)

Um pequeno roedor consegue atravessar o ambiente desértico com saltos rápidos, potentes e aparentemente imprevisíveis. Conhecido como jerboa, esse animal utiliza as patas traseiras como um sofisticado sistema de propulsão, capaz de ajudá-lo a escapar de predadores e se deslocar sobre a areia.

Mas como suas pernas conseguem produzir tanta força? Um estudo de biomecânica investigou o funcionamento das articulações desse roedor durante saltos em diferentes velocidades e descobriu que cada região dos membros posteriores desempenha uma função específica.

Quatro articulações trabalham como uma equipe

O jerboa estudado pertence à espécie Dipus sagitta, um roedor bípede adaptado à vida em ambientes áridos. Diferentemente de animais que caminham apoiando as quatro patas, ele depende principalmente dos membros posteriores para realizar seus deslocamentos saltatórios.

Para entender esse mecanismo, os pesquisadores analisaram o movimento e a produção de força nas articulações do quadril, joelho, tornozelo e metatarsofalângicas, localizadas na região em que os ossos do pé se conectam aos dedos.

A investigação utilizou uma técnica chamada análise de dinâmica inversa, que permite estimar as forças, os momentos e a potência produzidos nas articulações a partir dos movimentos observados e das forças exercidas contra o solo.

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Os resultados mostraram que o salto não depende de uma única articulação. Na verdade, existe uma divisão de tarefas entre diferentes regiões das pernas, que precisam atuar de maneira coordenada para impulsionar o corpo.

O que acontece quando o jerboa acelera?

Articulações coordenadas permitem ao jerboa realizar saltos rápidos e eficientes no deserto (Imagem: Getty images)

Um dos resultados mais interessantes apareceu durante os saltos em alta velocidade. Nos experimentos, o jerboa atingiu aproximadamente 2,5 metros por segundo.

Nessa condição, os momentos articulares de todas as regiões analisadas foram superiores aos registrados nos saltos mais lentos. Isso significa que as articulações precisaram suportar e produzir forças maiores para permitir uma propulsão mais intensa.

O quadril e o tornozelo tiveram destaque na produção de trabalho mecânico positivo, ou seja, na geração de energia necessária para impulsionar o corpo.

Enquanto isso, o joelho participou da absorção de energia, ajudando a controlar as forças durante o movimento. Já a articulação metatarsofalângica desempenhou uma função importante na região final do apoio, contribuindo para a estabilidade e a liberação de energia durante a impulsão.

A energia percorre as pernas em uma sequência

Outro achado importante foi a sequência de produção de potência, que apresentou um padrão chamado proximal-distal. Isso significa que os picos de potência surgiram primeiro em articulações mais próximas do tronco e depois avançaram para regiões mais distantes, em direção aos pés.

Na prática, essa organização permite que diferentes partes das pernas participem de uma mesma ação, em vez de trabalharem isoladamente.

O estudo foi publicado em 25 de setembro de 2026, na revista científica Zoology, com Hairui Liu como autor principal. Os pesquisadores identificaram que os padrões de potência das articulações mudam conforme a velocidade do salto, contrariando a hipótese inicial de que permaneceriam sincronizados nas diferentes condições.

Essa descoberta também interessa à engenharia. Compreender como o jerboa distribui forças e energia pode ajudar no desenvolvimento de robôs saltadores e sistemas de locomoção bioinspirados, especialmente aqueles projetados para atravessar terrenos irregulares, soltos ou instáveis.

Afinal, sobre a areia do deserto, cada impulso depende de uma combinação precisa entre força, equilíbrio e coordenação.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes