Alterações na memória, na atenção e em outras habilidades mentais podem representar mais do que dificuldades relacionadas ao envelhecimento. Um estudo publicado em outubro de 2026 identificou uma associação importante entre comprometimento cognitivo e maior risco de acidente vascular cerebral (AVC) em adultos que nunca haviam apresentado a doença.
O resultado chama a atenção porque sugere que mudanças no funcionamento do cérebro podem ajudar a identificar pessoas com maior vulnerabilidade vascular antes mesmo de um primeiro AVC. Dessa forma, a avaliação cognitiva pode ter importância não apenas para investigar problemas de memória, mas também para acompanhar a saúde dos vasos sanguíneos cerebrais.
Dificuldades cognitivas podem indicar vulnerabilidade vascular
O comprometimento cognitivo ocorre quando uma pessoa apresenta dificuldades em funções como memória, raciocínio, atenção, linguagem e capacidade de resolver problemas.
Essas alterações podem ter diferentes causas, incluindo envelhecimento, doenças neurológicas e problemas que afetam a circulação sanguínea cerebral.
O AVC, por sua vez, acontece quando o fornecimento de sangue a uma região do cérebro é interrompido ou quando um vaso sanguíneo se rompe. No tipo isquêmico, o mais comum, um bloqueio impede que o sangue chegue adequadamente ao tecido cerebral.
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Entrar no Canal do WhatsAppEmbora os fatores tradicionais de risco, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e tabagismo, sejam amplamente conhecidos, pesquisadores também investigam se alterações cognitivas podem ajudar a antecipar eventos cerebrovasculares.
Pesquisa acompanhou quase 4 mil adultos durante quatro anos
O estudo foi publicado em 29 de outubro de 2026 na revista Scientific Reports, com participação do pesquisador principal Zhaobo Shi e colaboradores.
A investigação acompanhou 3.875 adultos chineses com 40 anos ou mais, todos sem histórico anterior de AVC. No início da pesquisa, os participantes passaram por uma avaliação da função cognitiva utilizando o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM), instrumento que analisa diferentes habilidades mentais.
Nesse teste, pontuações inferiores a 24 foram consideradas indicativas de comprometimento cognitivo.
Depois da avaliação inicial, os voluntários foram acompanhados durante aproximadamente 4,1 anos para identificar a ocorrência de novos eventos cerebrovasculares.
Os pesquisadores também consideraram outros fatores que poderiam influenciar os resultados, como características demográficas, riscos cardiovasculares, níveis de homocisteína e presença de estreitamento das artérias intracranianas.
Risco de AVC foi mais de duas vezes maior
Um dos resultados mais importantes apareceu na comparação entre participantes com e sem comprometimento cognitivo.
Após os ajustes estatísticos, aqueles que apresentavam alterações cognitivas no início do acompanhamento tiveram:
- 2,55 vezes maior risco de AVC isquêmico durante o período analisado.
- 2,32 vezes maior risco de qualquer tipo de AVC.
Esses resultados indicam uma associação significativa entre a condição cognitiva inicial e a ocorrência posterior de eventos cerebrovasculares.
Entretanto, os pesquisadores não encontraram uma associação estatisticamente significativa entre o comprometimento cognitivo e a mortalidade por todas as causas.
É importante esclarecer que o estudo não demonstrou que dificuldades de memória provocam AVC. Os resultados mostram uma relação estatística, mas não estabelecem uma relação direta de causa e efeito.
Por que o cérebro pode apresentar esses dois problemas?
Uma possível explicação envolve a relação entre a saúde dos vasos sanguíneos e o funcionamento cerebral.
Alterações na circulação podem prejudicar o fornecimento de oxigênio e nutrientes aos neurônios. Dependendo da intensidade e da duração, esse processo pode afetar habilidades cognitivas.
Além disso, fatores como hipertensão, diabetes e alterações vasculares podem contribuir tanto para dificuldades cognitivas quanto para o aumento do risco de AVC.
Por isso, mudanças na memória e no raciocínio merecem atenção, especialmente quando são persistentes ou começam a interferir nas atividades cotidianas.
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Avaliação cognitiva pode ajudar na prevenção do AVC?
Os resultados publicados na Scientific Reports apontam para a importância de considerar a função cognitiva na avaliação geral da saúde cerebral.
Entretanto, o estudo foi realizado com adultos chineses e utilizou uma avaliação cognitiva específica. Portanto, os resultados não devem ser automaticamente aplicados a todas as populações.
Além disso, apresentar comprometimento cognitivo não significa que uma pessoa necessariamente terá um AVC.
A prevenção continua dependendo do controle de fatores conhecidos, como pressão arterial, diabetes, colesterol, sedentarismo e tabagismo. Dificuldades cognitivas persistentes também devem ser investigadas por um profissional de saúde.
