A doença de Alzheimer é frequentemente associada ao acúmulo de proteínas no cérebro, especialmente a beta-amiloide e a proteína tau. Entretanto, por trás dessas alterações existe um processo muito mais complexo, que envolve genética, inflamação e mudanças no funcionamento das células nervosas.
Uma pesquisa publicada em 2026 trouxe novas pistas sobre esse mecanismo. Os resultados indicam que diferentes fatores genéticos associados ao Alzheimer convergem para alterações em dois componentes fundamentais do tecido cerebral: a microglia, responsável pela defesa imunológica do sistema nervoso, e os neurônios, que permitem a transmissão de informações.
A descoberta ajuda a compreender por que a doença não pode ser explicada por um único gene ou mecanismo molecular.
O Alzheimer pode envolver muito mais genes do que se imaginava
A influência genética na doença de Alzheimer é significativa. Estudos com gêmeos estimam que a herdabilidade da condição pode ficar entre 60% e 80%, embora isso não signifique que uma pessoa tenha essa porcentagem de probabilidade de desenvolver a doença.
Um dos genes mais conhecidos nesse contexto é o APOE, especialmente sua variante APOE-ε4, considerada um importante fator de risco para o Alzheimer de início tardio.
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Entrar no Canal do WhatsAppEntretanto, o risco genético não depende apenas desse gene. Existem muitas outras variantes distribuídas pelo DNA que podem influenciar processos como metabolismo de lipídios, resposta imunológica, processamento de proteínas e funcionamento das sinapses.
É justamente nesse cenário que os pesquisadores buscaram identificar novas associações genéticas capazes de explicar melhor a origem e o desenvolvimento da doença.
Milhões de participantes revelaram novas pistas genéticas
Publicado em 28 de outubro de 2026 na revista científica Nature, com Emil Uffelmann como primeiro autor, o estudo realizou uma ampla análise genética envolvendo diferentes populações e 30 grupos de pesquisa.
A investigação reuniu dados de 109.479 pessoas com Alzheimer, 74.141 casos identificados por histórico familiar, mais de 2,1 milhões de controles e quase 500 mil controles adicionais por histórico familiar.
Ao todo, os pesquisadores identificaram 118 regiões genéticas associadas ao Alzheimer na análise multiancestral, além de outras nove em análises específicas de ancestralidade. Entre os resultados, 48 regiões eram novas em relação às associações anteriormente identificadas.
Essas regiões, chamadas de loci, correspondem a posições do genoma que apresentam associações estatísticas com determinada característica ou doença.
Outro resultado importante foi a estimativa de 16% de herdabilidade atribuída a variantes genéticas comuns, quase três vezes superior a estimativas anteriores utilizadas pelos pesquisadores.
Isso indica que a contribuição das variantes comuns para o risco de Alzheimer pode ter sido consideravelmente subestimada.
Microglia: quando a defesa cerebral participa da doença
Um dos resultados mais interessantes envolve a microglia, um tipo especializado de célula imunológica residente no sistema nervoso central.
Essas células funcionam como uma espécie de sistema de vigilância do cérebro. Elas monitoram o ambiente, reconhecem alterações, removem resíduos celulares e participam da resposta contra agentes potencialmente prejudiciais.
No Alzheimer, entretanto, a atividade da microglia pode sofrer alterações importantes. A pesquisa identificou um enriquecimento de sinais genéticos associados a genes com maior expressão na microglia de pessoas com Alzheimer, em comparação com indivíduos sem a doença.
Isso sugere que alterações na regulação dessas células estão intimamente relacionadas à predisposição genética para a condição.
Um dos processos envolvidos é a fagocitose, mecanismo pelo qual determinadas células capturam e degradam partículas, resíduos e estruturas indesejadas. No cérebro, essa atividade pode participar da remoção de componentes relacionados ao acúmulo de proteínas.
Entretanto, respostas imunológicas persistentes ou desreguladas também podem contribuir para alterações prejudiciais ao tecido nervoso.
Neurônios também apresentam alterações importantes
Enquanto a microglia apresenta maior expressão de determinados genes associados à doença, os pesquisadores encontraram outra tendência nos neurônios.
Os resultados mostraram enriquecimento de sinais genéticos em genes com expressão reduzida em determinados tipos de neurônios nos casos de Alzheimer.
Entre as populações identificadas estavam neurônios GABAérgicos e neurônios glutamatérgicos. Os neurônios glutamatérgicos participam principalmente da transmissão de sinais excitatórios, enquanto os GABAérgicos estão relacionados à inibição da atividade neuronal.
O equilíbrio entre esses dois sistemas é essencial para o funcionamento adequado dos circuitos cerebrais. Quando a expressão de genes importantes para essas células é alterada, processos como comunicação entre neurônios, manutenção das sinapses e processamento de informações podem ser prejudicados.
Ainda não está completamente esclarecido se essas alterações representam causas iniciais da doença ou consequências de processos neurodegenerativos já estabelecidos.
Novos genes podem abrir caminhos para tratamentos
Além de identificar regiões genéticas associadas ao Alzheimer, os pesquisadores priorizaram genes que podem representar futuros alvos terapêuticos.
Entre os candidatos estão SYK e AXL, relacionados à atividade imunológica e ao funcionamento da microglia.
Esses genes participam de mecanismos associados ao reconhecimento de estruturas celulares e à resposta imunológica, incluindo processos relacionados à remoção de beta-amiloide.
A identificação desses alvos é importante porque os tratamentos modificadores da doença disponíveis têm concentrado parte significativa de sua atuação na redução dos agregados de beta-amiloide.
Investigar outros mecanismos, especialmente aqueles relacionados à atividade imunológica e à proteção dos neurônios, pode abrir novas possibilidades para o desenvolvimento de medicamentos.
A pesquisa também identificou relações com processos envolvendo metabolismo de lipídios, adesão celular e degradação de proteínas.
Com isso, o estudo amplia a compreensão da genética do Alzheimer e apresenta novas possibilidades para investigar como alterações na microglia e nos neurônios participam da evolução dessa doença neurodegenerativa.
